Crônicas


A África que eu não conhecia


20/06/2010


(Vicência Jaguaribe)
 Esta crônica foi escrita durante
a Copa do Mundo de 2010,
na África do Sul



Vi, no Jornal Nacional, uma cena inimaginável, pelo menos para mim: pinguins sozinhos ou em bando, circulando por um centro urbano e até atravessando uma rodovia. Logo eu, que, na minha santa ignorância, na minha vergonhosa carência de conhecimentos gerais, pensava que pinguins só viviam nos polos. E o mais surpreendente – para mim, repito – é que a cena foi gravada na África do Sul. E eu, meu Deus dos ignorantes, nem desconfiava que na África existissem regiões onde a temperatura chegava a zero ou mesmo a um ou dois graus negativos, e até podia nevar.
            Acostumamo-nos a ver a África como o continente do sol, o continente dos desertos, o continente do grande Saara, onde os hebreus passaram quarenta anos perdidos. Para nós, a África é a África na qual Agá, por vontade de Deus e por exigência de Sara — Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac —, foi banida do seio de Abraão com o filho Ismael, que quase morre de sede sob o sol escaldante.
Para nós, leigos na ciência dos estudos da terra e de seus climas, a África é a África de onde vieram os escravos negros. E, segundo aprendemos depois, os traços físicos da negritude decorriam da exposição por milênios ao clima daquelas terras. Aqueles traços eram, pois, uma adaptação ao clima do ambiente hostil em que viviam. E, segundo consta nas pesquisas modernas, todos os indivíduos da espécie Homo Sapiens tinham essas características. Depois, com as levas migratórias, quando a humanidade começou a deslocar-se para climas mais frios, para se adaptar a exigências climáticas diferentes, é que foram adquirindo outros traços.
Em reportagem recente da revista VEJA, com o sugestivo título Unidos pelo futebol... e pelo DNA, que mostra como são sem fundamento as teorias racistas, lê-se o que segue:

O Homo Sapiens tinha uma população inteiramente formada por indivíduos de pele escura quando saiu da África. As variações genéticas que tendem a produzir pele clara certamente ocorreram indistintamente em todos os contingentes humanos. Mas elas só se firmaram como mutações vantajosas para os grupos humanos que foram povoar as latitudes mais baixas do globo terrestre, onde o efeito protetor da melanina, o pigmento que dá cor escura à pele é desnecessário – e até prejudicial por filtrar a fraca insolação das regiões frias, impedindo a absorção da vitamina D garantida pelos raios ultravioleta da luz solar.

A África que conhecemos, ainda, é a África famélica, marcada por secas periódicas, esperando a boa vontade e o bom alimento dos países ricos, para não desaparecer da face da Terra levada pela desnutrição.
A África que conhecemos, finalmente, é a África cantada por Castro Alves, a África do poema “Vozes d’África”, a África que a situa na antessala do inferno, como diria minha avó:

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

            É uma África que, climaticamente, está mais para o calor sufocante das regiões mais áridas do Nordeste brasileiro do que para o frio europeu:

Eu nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador.
Quando subo às pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!...”

E ficamos — ou eu fiquei — nesse patamar de conhecimentos incipientes sobre o grande Continente que, hoje, sabemos, é o berço da humanidade. E restamos todos de queixo caído, diante de uma África trazida até nós por obra e graça da Copa do Mundo de Futebol. Estarrecemo-nos vendo os repórteres da Rede Globo trajando os modelitos europeus de inverno, de cachecol, de casaco e de luvas. E admiramo-nos ao saber que o intenso frio presenteou a Fátima Bernardes com um problema de garganta que a levou a ser substituída por outro apresentador. E vemos, quase sem querer acreditar, os jogadores com um uniforme especial de mangas compridas e até de luvas. E apreciamos boquiabertos, a fumacinha escapando da boca desses jogadores.
E, para completar, nos últimos dias, tivemos a visão dos pinguins, que deve ter estarrecido não só a mim, mas a muita gente.
Bem, caros brasileiros fashions e endinheirados, deem um pouco de descanso a Bariloche. A partir de agora, brinquem de europeus também na África do Sul.
           






A vida sempre encontra um jeito

(Vicência Jaguaribe)

10/06/2011


O bebê fora encontrado em um camburão de lixo. Foi isso que o noticiarista disse no jornal da noite. Levaram-no ao hospital onde um pediatra de plantão constatou que ele não tinha mais do que um dia de nascido e ainda estava preso ao cordão umbilical. Ficou internado. Era prematuro, e um exame de sangue atestara presença de drogas no pequeno organismo. Teria aquela criança chance de sobreviver? Fora cultivada em uma terra contaminada e desenvolvera-se sob o influxo de perigosos fertilizantes.

A reportagem mostrava o pequeno corpo quase sem vida na UTI neonatal. E eu pensei nas inúmeras crianças que morrem em situações semelhantes. Mas aquela fora socorrida a tempo. Tinha uma chance de sobreviver. Teria mesmo? — Confabulava comigo mesma, enquanto dirigia do apartamento de uma amiga onde assistira ao noticiário até meu próprio apartamento.

No outro dia bem cedo, caminhando na pracinha perto de casa, vi algo que me fez lembrar a criança do noticiário: o que restara do tronco de uma árvore brutalmente cortada há alguns meses e que ficara ali abandonado.  Pois não é que constato o aparecimento de vários brotos naquele pedaço de madeira que todos pensavam estar morto! Apesar das más condições e do estado em que o deixaram, o tronco sobrevivia. Sobrevivia como sobrevivem certos vegetais que nascem no asfalto ou entre pedras. Mais uma vez, a natureza nos dava provas de que é possível resistir às condições mais adversas.

Então, recordei-me de uma frase pronunciada por uma das personagens do filme Jurassic Park. O dono do parque explicava a um cientista convidado a conhecer a área de uma floresta onde viviam variadas espécies de dinossauros, animais extintos há sessenta e cinco milhões de anos. Haviam sido recriados em laboratório, a partir do cruzamento do DNA daqueles enormes animais pré-históricos, encontrado em um inseto fossilizado que lhe tinha sugado o sangue, com o DNA de anfíbios. A uma pergunta do cientista, preocupado com a reprodução de uma espécie de animal que nunca convivera com o homem, o proprietário do parque afirmou ser impossível a reprodução daqueles répteis gigantes, pois todos os que viviam ali eram fêmeas. O cientista pondera: A vida sempre encontra um jeito.

Será que a vida vai encontrar um jeito de não abandonar o corpo do menininho rejeitado que está na UTI? Foi a pergunta que me fiz enquanto caminhava. Conseguiria aquele garotinho sobreviver às condições desfavoráveis em que fora gerado e às que teve de enfrentar quando nasceu? Conseguiria entrar no rol dos sobreviventes das guerras, da fome, da violência, das drogas? Seria ele uma flor entre pedras, um arbusto nascido no meio do asfalto ou um broto num tronco de árvore considerado morto? Desafiaria a morte, mesmo em situação hostil?

Por enquanto não podemos dar essa resposta. Aquele corpinho raquítico e prematuro ainda continua em luta contra a morte, que o ronda desde sua concepção indesejada. Mas, como existe o milagre da sobrevivência, esperamos que ele se repita para salvar um dos filhos da droga e da irresponsabilidade dos adultos.


         P.S. 21/11/2011
      Hoje, seis meses após o internamento do menino, essa resposta pode ser dada. Obrou-se o milagre da sobrevivência. A vida encontrou um jeito.







A presença


(Vicência Jaguaribe)


Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina

(João Cabral de Melo Neto)




            Pois é! Ela chegou inesperadamente, com sua presença marcante e prendeu-me em casa por um dia inteiro. Há muito não a via, ou vi-a rapidamente. Foi minha companheira quase inseparável dos quinze aos cinquenta ou cinquenta e cinco anos. Conhecemo-nos, portanto, quando eu era adolescente, e ela ficou ao meu lado por muitos anos. Não. Não pensem que falo de uma parenta ou de uma amiga muito querida e especial. Ao contrário.
Começo por dizer que se anuncia por um quadro de cansaço, extenuação e sono. Depois, por uma sensação de tontura e de náusea, a que se junta uma discreta dor de cabeça só de um lado — raramente, dos dois lados —, que aumenta aos poucos, juntamente com a náusea. Até o ponto em que vem o vômito e o mal-estar característico: suor frio e sensação de desmaio. Então, expele-se tudo o que se tem no estômago. E o que não se tem também. Expele-se como se expelem excrementos e secreções, com uma sensação de nojo e de vertigem. Até que, não tendo mais o que expelir, eis que o estômago envia uma substância verde, que dizem ser bílis. O jeito, então, é entrar no plasil injetável, sob pena de se vomitar até a alma, que, a essas alturas, está em frangalhos. Isso tudo se curte em um quarto às escuras, um ventilador ligado e  um pedido de silêncio a quem estiver por perto.
            Pelo que foi dito, todos vocês que leem estas mal digitadas linhas, se é que as leem, devem estar desconfiando de que falo da enxaqueca. É isso mesmo, vocês têm razão. Enxaqueca, que, segundo o Mestre Aurélio, é uma “Síndrome constituída por cefaléias periódicas, muitas vezes unilaterais, e que se acompanham de náusea, vômito e perturbações sensoriais variáveis”. A palavra deriva do árabe ăs-šaqĭqa, cujo significado é dor de cabeça, informação muito pertinente nos tempos modernos, sem intenção de ser politicamente incorreta.
            Mas o que sei é que essa bendita síndrome atrapalhou minha vida por muitos anos. Sua presença me fez perder passeios e viagens e outras coisas importantes para uma adolescente. Ela chegava nas horas mais imprevisíveis, instalava-se e testava minha paciência e minha resistência. Não conto as vezes em que tive de deixar de assistir aula na faculdade e, depois, de trabalhar, porque não me aguentava em pé. Às, vezes ia para a sala de aula (isso no Colégio Nossa Senhora das Graças), ficava por uns quinze minutos, passava uma tarefa para os alunos e deitava-me na enfermaria. Deixava passar uns dez minutos, voltava à sala de aula. E, nesse vaivém, conseguia salvar a tarde.

            Bem, ouvi de muitas pessoas as causas da enxaqueca: cansaço físico e mental; preocupação; estresse; alimentação errada, síndrome pré-menstrual, coisas desse tipo. Isso em uma época em que nem havia stress (e, se havia, ninguém lhe conhecia o nome, ainda não estava na moda). Mas minha enxaqueca — esse minha é muito sintomático: a enxaqueca passa a ser tão familiar, uma presença tão constante, que a tratamos como algo a nós inerente — bem, minha enxaqueca não me oferecia parâmetros: vinha quando eu estava cansada e quando estava descansada; quando me sentia alegre ou deprimida; quando me havia alimentado e quando estava com fome; antes, durante e depois da menstruação.
            Consultei vários médicos e nenhum deles deu muita atenção ao que eu dizia. Passavam a idéia de que enxaqueca era uma doença relacionada com a sensibilidade feminina (leia-se, nas entrelinhas, frescurite de mulher). Logo, por muito tempo, foi considerada uma síndrome que atacava, principalmente, as mulheres. Hoje, é diferente, mas naquela época, raros homens tinham enxaqueca. Pois bem, consultei vários médicos até que me indicaram um neurologista especialista no assunto. Ele me explicou que a enxaqueca tem várias causas, que às vezes atuam conjuntamente. E que é, basicamente, um problema químico. Só se resolve com uma droga específica que reponha no cérebro a serotonina que, por algum motivo, deixou de ser produzida. Tratou-me, então, com antidepressivo. O que posso afirmar é que fiquei praticamente boa, ao ponto de uma amiga dizer que minha vida podia ser dividida em duas partes: antes e depois do Dr. João José. Mas curada mesmo, ou quase, fiquei quando comecei a tomar Angipress (atenolol), regulador da pressão arterial e dos batimentos cardíacos. Hoje, ela passa tanto tempo sem dar o ar de sua graça, que chego a esquecê-la.
            Só falta dizer que a enxaqueca tem um componente genético muito forte. Tanto a família de meu pai quanto a de minha mãe sofrem deste mal. Minha avó materna, uma mulher forte, que se abalava com muito pouca coisa e que não se prostrava nem por dores físicas nem por dores morais, prostrava-se com enxaqueca. E minha tia Maristela, irmã de minha mãe, mulher valente e corajosa, para quem o bicho era ela mesma, baixava hospital com essa síndrome incômoda. Na minha família, temos casos de enxaqueca em crianças que ainda não saíram da segunda infância.
O que sei é que a enxaqueca é um incômodo que ninguém merece. Se alguém quiser fazer mal a um inimigo, jogue-lhe a praga da enxaqueca. Pode ter a certeza de que estará vingado para o resto da vida.
            Ah! tem mais uma coisa. A enxaqueca pode ser considerada também a doença dos gênios e/ou dos poetas (a gente tem que tirar proveito dessa peste). Não me deixa mentir João Cabral de Melo Neto, que compôs um poema em homenagem à aspirina, com a qual ele tentava debelar sua dor de cabeça (enxaqueca?) constante:


Num monumento à aspirina


Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato, 
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia. 

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.






Cada cabeça, uma sentença

(Vicência Jaguaribe)



Meu tio Carlos dizia que a Constituição Brasileira deveria ter um único artigo: Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Pronto, estava equacionado o problema nacional. Acho que ele tinha razão. Vejam o que acontece com as obras da copa. Os responsáveis por essas obras deveriam esconder-se na latrina — se é que alguém ainda sabe o que é isso.
            Dizem que o Ceará é o estado mais adiantado nos trabalhos para a recuperação dos estádios, no caso, o Castelão. Não sei não, mas não vejo nada adiantado, embora o telejornal tenha dito que lá se empenham, de dia e de noite, setecentos trabalhadores da construção civil. E os projetos de alargamento das avenidas que dão acesso ao estádio, a recuperação e a ampliação do Aeroporto Pinto Martins? O aprimoramento da rede hoteleira da capital, insuficiente para acolher o número de visitantes torcedores que aqui aterrissarão? Percebo que o tempo passou na janela e só as autoridades não viram. Temos um prazo de menos de dois anos para entregar essas obras prontas. O que vemos até agora em nossa cidade é uma buraqueira não imaginada nem pelas mentes mais pessimistas — aliás, o slogan da prefeita Luziane, Fortaleza bela, já foi mudado pelo povão para O buraco é dela. Além dos buracos, alguns, verdadeiras crateras, há a interdição concomitante de várias ruas e avenidas, em um serviço que a população não sabe para que é: se para água se para esgoto. A verdade é que não se tem mais condição de circular pela cidade, a não ser de helicóptero. Mas eu, que, como a absoluta maioria dos brasileiros, não possuo um, tenho que me aventurar pelos desvios e engarrafamentos da vida.

            A alguém preocupa o impacto que a cidade sofrerá com as transformações a serem feitas? Afinal, temos uma urbe de quase trezentos anos, com uma parte da arquitetura inspirada nos estilos dos tempos que o vento levou. Como conciliar o novo e o moderno de modo a um não agredir o outro? Bem, temos vários exemplos no Brasil e no mundo de que isso é possível. A parte antiga da cidade deve ser encampada pelos poderes públicos, que, juntamente com instituições particulares, poderão restaurá-la e conservá-la. Aqui em Fortaleza, temos um exemplo dessa combinação. O Centro Cultural Dragão do Mar foi projetado de modo a não agredir o entorno formado por construções antigas. O ambiente, restaurado e pintado com cores vivas e alegres,  transformou-se em local de lazer e de cultura: instalaram-se bares e restaurantes nas antigas construções; inauguraram-se no Centro duas salas de cinema e um observatório. O espaço cultural do Dragão do Mar oferece rica e variada programação para as crianças nos fins de semana, promove feiras de artesanato e, com frequência, expõe obras de artistas famosos.
Centro Cultural Dragão do Mar


          












Entorno antigo do Centro Cultural Dragão do Mar

 Mas reconheçamos a verdade: Fortaleza não tem uma cultura de preservação do antigo. As pessoas não se mobilizam para pressionar as autoridades a fazer o tombamento de uma construção e não reagem quando um prédio antigo vai ser demolido, para dar lugar a um supermercado, como aconteceu com o chamado Castelo do Plácido, uma construção do início do século XX. O episódio consistiu no mais completo descalabro.

            Vale a pena conhecer a história — que me chegou pela oralidade — desse castelo, situado Av. Santos Dumont, entre as ruas Carlos Vasconcelos e Mons. Bruno. O Sr. Plácido de Carvalho era um rico industrial e comerciante cearense do início do século XX. Em viagem à Itália, conheceu uma jovem de nome Pierina Giovannni, por quem se apaixonou. Pediu-a em casamento, mas ela ficou relutante. Como ele insistisse, ela lhe impôs uma condição: só seria sua esposa e se mudaria para o Brasil, se ele construísse um castelo para servir de residência aos dois. O rico homem não se fez de rogado, como diria o vulgo: adquiriu, na Itália, a planta de um belo e grande castelo e mandou construí-lo em Fortaleza. Isso foi por volta de 1912. Plácido e Pierina viveram juntos até a morte dele em 1935. Viúva, dona Pierina casou-se com o arquiteto húngaro Emílio Hinko, que trabalhava na cidade em alguns projetos. Foram dele, inclusive, os projetos do Clube Náutico Atlético Cearense e da Base Aérea de Fortaleza.
            Ainda na década de 1930, o castelo foi ocupado pelo Serviço de Malária, um departamento equivalente à Sucam de hoje. Em 1970, o castelinho, como às vezes carinhosamente o denominavam, apesar de seu tamanho, foi vendido ao grupo Romcy, que construiria, ali, naquele espaço, um supermercado. Mas o grupo faliu e nada de supermercado. Então, quando a construção estava às vésperas de seu tombamento, foi demolida na calada da noite, como gostava de dizer certo político alagoana. E o terreno ficou abandonado durante anos, até que o governo o desapropriou e nele construiu a Central de Artesanato Luíza Távora. Triste fim para uma história de amor tão bonita. Dona Pierina morreu em 1958, e o segundo marido, seu Emílio, em 2002.
            Este é só um exemplo do que o fortalezense faz com sua cultura, com sua arquitetura histórica. E ninguém diz nada, ninguém faz nada. O governo, quando toma consciência do absurdo, já não tem mais tempo para fazer alguma coisa. Há muitos espertalhões que agem mais rápido do que o poder público, que anda em ritmo de tartaruga. Ainda hoje, quando passo em frente ao local do antigo castelinho, como carinhosamente o chamavam, tenho pena e sinto saudades dos meus tempos de estudante, quando, andando de ônibus pela Av. Santos Dumont, ficava com o pescoço doendo de tanto entortar a cabeça, para apreciar o ninho de amor de Plácido e Pierina, naquela época, já bastante deteriorado. E ficava olhando para trás até que o ônibus dobrasse na esquina e eu perdesse de vista o famoso Castelo.
         E está acontecendo o mesmo desleixo com outras construções famosas desta capital, como a Casa do Português; o casarão da família Leite Barbosa, cujo patriarca foi o Barão de Quixadá; as mansões antigas da Av. Francisco Sá e imediações. Recentemente, conseguiram salvar da destruição um famoso casarão da Praia de Iracema, chamado Vila Morena. Na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o casarão, construído com dois pavimentos e uma torre, foi alugado aos americanos, que o transformaram em um cassino para diversão dos oficiais. Depois da guerra, os donos arrendaram-no a uns portugueses, que o transformaram em bar e restaurante e mudaram-lhe o nome para Estoril. Em 1990, não suportando uma forte chuva, o edifício desabou na sua quase totalidade. Foi reconstruído como uma réplica. A Prefeitura o tombou e mandou restaurá-lo fielmente. O Estoril transformou-se num ponto de encontro da intelectualidade e da boêmia de Fortaleza. Lá, discutia-se política com teor subversivo, o que levou os governos militares a manter o bar sob vigilância. Segundo informações da Secult, concluída a restauração, ele será reaberto ao público.
         Dá para perceber, senhores leitores, que os cearenses, de modo geral, não têm a mínima preocupação com o que as reformas e as novas instalações poderão causar à paisagem de sua capital. Não estão nem aí. Enquanto nós, os mais velhos, mesmo os que têm pouca noção da riqueza do fenômeno cultural, lamentamos esse pouco caso com nosso patrimônio histórico, há pessoas, e muitas delas jovens, que estão se lixando para a riqueza de nossa cultura.
            Às vezes chego a pensar que o fortalezense age da seguinte forma: É velho? Então bota no chão para fazer um novo. Isso me lembra uma tia, muito querida de toda a família, minha segunda mãe, que faleceu há pouco mais de três meses, aos noventa e quatro anos. Ela dizia não gostar de nada velho, nem móveis, nem enfeites, nem livros, nada. Em sua casa, os móveis, enfeites, porta-retratos e outras coisas mais tinham um toque de modernidade. O único móvel antigo que conservava era uma grande eletrola que tocava discos de cera e que foi de seu pai, meu avô. E conservava-a, esperando que um dos sobrinhos se interessasse por ela um dia. É isso. Cada cabeça, uma sentença.






Gabriel, o menino


(Vicência Jaguaribe)



Ele chegou meio encabulado, olhando enviesado para as pessoas e para o apartamento. Acompanhava a avó, que prestava serviços àquela família, mas que se encontrava de licença para tratamento de saúde. Como, porém, aquela era uma data especial – os 60 anos da patroa –, fora passar o dia por lá, para ajudar no que pudesse. Acabavam de chegar doze pessoas da família – irmãos, sobrinhos e primos. O apartamento, apesar de espaçoso, estava cheio – cheio de gente, de risos, de alegria, de felicidade, enfim.
            E a avó o levou. Era um menino negro e bonito, que, segundo ele próprio, tinha seis anos. A cabeça, bem feita – detalhe que chamava, de imediato, a atenção dos hóspedes, cearenses, famosos por ostentarem uma grande cabeça chata. O cabelo, cortado rente, deixava mais à vista o perfeito desenho craniano. Os olhos tinham um brilho ao mesmo tempo doce e sagaz. Algo nele falava de insubmissão, de orgulho, mas também de delicadeza e finura. Se lhe dessem oportunidade, ele seria, sem dúvida, um diplomata.
            Aproximava-se das pessoas em silêncio, ficava um instante quieto, mas, depois de alguns minutos, estava à vontade e começava a falar.
            Chamava-se Gabriel. Tinha, pois, o mesmo nome do anjo que anunciou a Maria o nascimento de Jesus, saudando-a com a famosa invocação: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Como os anjos, esses enviados de Deus, são seres espirituais, não devem ter uma estrutura material definida; daí, cada povo poder idealizá-los segundo suas próprias características físicas. Assim, a despeito de a iconografia européia, herdada pelas Américas, representá-los brancos, louros e de olhos azuis, deve haver anjos de todas as cores. E ali estava a prova, à frente de todos – um anjo Gabriel negro, de pele lustrosa e sorriso maroto, com um inconfundível sotaque pernambucano.
            Sentados na varanda do apartamento, os hóspedes puxaram conversa com ele. Ficaram sabendo que uma de suas tias trabalhava em um apartamento próximo; que ele torcia pelo Náutico e pelo Corinthians e gostava de jogos de computador. Mas a paixão maior era o futebol: de quando em vez, olhava para um apartamento em frente, com uma quadra de futebol, onde jogavam algumas crianças, e deixava escapar: Eu queria estar jogando ali.
            Quando resolvia ir para a cozinha, a dona da casa aproximava-se das visitas e avisava: Não deem muita trela ao Gabriel. Aquilo não é gente! Mas ele tinha um certo encanto que não deixava as pessoas fazerem de conta que ele não estava por perto. Quis fazer amizade com um dos sobrinhos da dona do apartamento – um menino de doze anos –, que não lhe deu confiança. E ele passou o dia rondando os adultos, vendo televisão, comendo bolo. Depois do almoço foi, com o dono da casa e dois dos sobrinhos visitantes, receber mais uma parenta que chegava do Ceará. E, quando a porta se abriu para acolhê-la, só se ouviu a voz da chegante, que se destacava pelo tom e pela altura: Mas, Lúcia, teu neto é muito bonito! – E escutou-se a resposta da avó, uma mulata: É porque ele é preto.
            Não se sabe bem o que o menino ficou pensando daqueles elogios. Mas abria um belo sorriso de dentes brancos quando os ouvia.
            Talvez o Gabriel nunca houvesse experimentado tanta atenção. Nem se sabe também, na verdade, por que todos fizeram aquela festa com ele. Estavam na casa de uma família mestiça: a dona da casa, branca, casara-se com um negro, e os dois tinham três filhas mulatas. Mas os familiares que a visitavam naquele dia eram de uma brancura de leite. Faziam eles uma tentativa de serem politicamente corretos, naquela ocasião? Ou estavam sendo sinceros nos afagos ao menino negro? Mistério! Mistérios da alma humana!
            Quando se aproximou o fim da tarde e o Gabriel tomou banho e arrumou-se para ir embora, olhou para a avó e disse algo que não se sabe se expressava perplexidade, admiração, crítica, ironia, ou uma mera constatação:
            - Vó, eu nunca vi tanta gente branca junta!
            





De cima da ponte


(Vicência Jaguaribe)



            A minha é uma terra seca, como a maioria das terras do sertão cearense. Nela não se cultivam flores nem frutas nem legumes, a não ser banana, batata doce e coco. Quase tudo vem de fora. É, pois, uma cidade pobre em produção de alimentos, em  belezas naturais — e, diga-se, para ser honesto, em realizações culturais também.
            Da ponte que passa sobre um braço do Rio Jaguaribe, pode-se descortinar, em tela de cinemascope, a cara e o espírito de minha cidade. À frente, temos a CE que liga o município à BR 116; à direita e à esquerda, as espaçadas casas da periferia; para trás fica a cidade, em cuja entrada uma imagem da Virgem Maria dá as boas-vindas aos chegantes. Uma olhada para trás e descortina-se, para além da entrada, o casario simples, que cede lugar, de espaço a espaço, a uma ou outra casa assobradada moderna, de muro alto, que a violência da cidade grande já chegou à minha terra. Além de uns três ou quatro casarões antigos. À esquerda da estátua, um posto de gasolina. E o mais não se vê da ponte. Pelo que se observou, no entanto, tem-se uma ideia do que vai pela frente.
            À esquerda ou à direita, a paisagem é a mesma: sertão seco, chão escaldante, arvoredo quase em combustão, um ou outro sertanejo de bicicleta, a cavalo ou a pé. Em suas feições, os finos e às vezes profundos canais por onde escorre o sofrimento e a conformação, e revela-se uma velhice precoce. As casas que abrigam algumas dessas pessoas espalham-se aleatoriamente, sem planejamento, umas mais perto da estrada, outras mais distantes. São casas muito simples, de porta e janela, umas de pau a pique.
            Crianças brincam ao sol ou à sombra raquítica de um arbusto mais alto ou de uma árvore quase desfolhada. Uma mulher varre o terreiro, outra, de cócoras, lava roupa  em uma bacia; outra ainda, sentada em um banco rústico feito do tronco da carnaubeira, amamenta o filho de meses, enquanto o mais velho, de um ano ou um pouco mais, brinca a seus pés.
            Além, mas não muito além daquelas casas, as frondes das carnaúbas, com ou sem o canto da jandaia, murmuram ao vento um desafio: venha inverno, venha verão; venha enchente, venha seca, estarão sempre ali. Estarão sempre presentes a dar um toque de beleza àquele sertão e a oferecer um pouco de alento ao sertanejo.
            Por baixo da ponte, corre um fio d’água, lembrando que por ali passa um rio.
Adicionar legenda
          Mas caiam duas ou três chuvas e o que se vê de cima da passarela de concreto e de ferro é um espetáculo inacreditável: os arbustos ressuscitam, as árvores, com suas folhas lavadas, respiram aliviadas, e as pessoas sorriem. É a fé que chega manso, sem alarido: fé em um bom inverno, em uma boa safra, em um hiato naquela vida de carência e sofrimento. O fio d’água avoluma-se e as crianças ficam na expectativa do dia em que poderão pular da ponte, para nadar nas águas doces da ressurreição.
            Um mês de chuvas, e o rio passa, precedido pelo ronco das águas, anunciador do  aluvião, que inunda e fertiliza as terras das margens do agora finalmente rio. Toda a cidade se prepara para esse momento. E ouve-se o grito: O rio passou! O rio passou! De cima o que se vê é um mundo de água que chega com violência, lambe afoitamente o tabuleiro da ponte e segue em direção ao mar. Passado o momento apocalíptico, o rio acalma-se e as crianças, inconscientes e inconsequentes, se aventuram na brincadeira suicida de pular da ponte para as águas corredeiras.
            Agora, a paisagem vista de cima da ponte é muito diferente da paisagem de um mês atrás. Inacreditável para quem não está acostumado com os humores do sertão: à esquerda e à direita, um tapete verde, que esconde os pedregulhos, antes visíveis e cortantes; alguns agricultores que moram nas proximidades também podem ser vistos já capinando o mato, para começar o plantio. Com certeza, anteveem a fartura vindoura, que compensará os três anos de seca que quase os expulsam da terra onde nasceram. Essa certeza lhes vem da fé em Senhora Santana, a padroeira da cidade, e no Padim Padre Cícero. Eles não lhes hão de faltar.
            Lá ao longe já se acumulam as nuvens de um cinza azulado. Em minutos, os galhos das árvores começam a balançar cada vez mais violentamente. É o vento que, anunciando a chegada da chuva, também nos traz arrepios. E já não se pode divisar o limite entre o céu e a terra, sendo os dois um só, aproximados pela chuva.


            



DENÚNCIA E PEDIDO DE PROVIDÊNCIA

30/08/2011












Eu, como muitos outros jaguaruanenses, estou de volta à minha terra para os últimos dias dos festejos a Senhora Santana, padroeira de nossa cidade. A cada ano, horrorizo-me mais com a poluição sonora que invade Jaguaruana, proveniente de serviços de som que tanto funcionam em lugares fixos como circulam pela cidade. As pessoas que residem em áreas próximas às casas de comércio e bares não têm sossego nem de dia nem de noite.
        A casa de minha família situa-se na Av. Simão de Góis, a cerca de 200 metros da Igreja Matriz. À nossa esquerda, fica a loja Macavi e, à direita, a Pizzaria Jô. A dita loja da esquerda, em determinadas datas, usa um serviço de som que funciona das 7 às 18 horas, com um intervalo na hora do almoço, em uma altura que incomoda não só os que habitam nas suas imediações, mas nas ruas circunvizinhas. A pizzaria, por seu lado, embora não brinde seus frequentadores com som durante toda a semana, quando o usa à noite, prolonga o expediente até altas horas, com música ao vivo, em uma altura que, sem dúvida, não usaria se os familiares de seu proprietário morassem por perto.  

      Os carros e motos contribuem para ampliar o incômodo da poluição sonora: parecem até dotados de mecanismos ampliadores do barulho produzido pelos motores que os acionam. Circulam em alta velocidade, o que aumenta o inferno sonoro que caracteriza, nos últimos tempos, esta cidade.
      O contato que se faz com o número 190 é infrutífero: a delegacia registra a queixa, mas nenhuma providência é tomada.
         Constata-se, então, uma realidade que nos deixa estarrecidos: nossa cidade, antes tão calma e agradável, transformou-se em um centro de barulho que desanima os que querem, de vez em quando, a ela retornar. Ontem mesmo, uma parenta que mora nas imediações da Macavi e da referida pizzaria e que está com problemas de saúde foi obrigada a retirar-se de sua residência.
      Pergunto-me, então, por onde andam as autoridades deste município. Por onde anda o delegado, o promotor e o juiz que não tomam providência? Não residem na cidade, ou desconhecem as leis que regulam a boa convivência entre munícipes, visivelmente ignoradas pelos novos donos do dinheiro? Saliento que não denuncio essas autoridades. Simplesmente deixo a pergunta no ar.
        Acrescente-se que, para piorar a situação deste pedaço de rua a que me refiro, o beco limitado pela Macavi e pela casa de minha família, de largura já ilegalmente diminuída pela invasão indébita do espaço público, é transformado em pista de corrida das motos que circulam em alta velocidade, pondo em risco a vida de crianças e idosos, principalmente.
        Agora, pergunto-me: se esta situação é insustentável para os que vêm à cidade esporadicamente, o que não representa para os habitantes, isto é, para aqueles que residem permanentemente em Jaguaruana?
        Será necessária a intervenção estadual para que as autoridades municipais constituídas tomem providências? Para que esta cidade não se transforme em uma localidade inviável de ser habitada? Se isso for preciso, não tenham dúvida, entraremos com uma denúncia em uma instância superior.

Vicência Maria Freitas Jaguaribe






A inelutável presença do imponderável



(Vicência Jaguaribe)





            13/06/2011


Não importa a idade. Não importa a vida que se levou. Não importa se se fez o mal ou o bem, o certo ou o errado. Não importa nada. Ela está sempre à espreita. O que muda é o momento em que chega, o modo como chega, o tempo que leva para finalizar o processo.

Neste fim de semana, encontrei-a em plena atividade. Chegou da maneira mais conservadora, devagar, sem pegar ninguém de surpresa. Vinha cansada porque aquele fora um longo caminho a percorrer. Houve momentos em que Ela até pensou que não chegaria o dia. Encontrou um ambiente tradicional, à moda antiga. Ela já estava até se acostumando com as modernidades, pois há algum tempo fora obrigada não só a mudar, mas a modernizar o seu modus faciendi, embora soubesse que a mudança era só aparente. Na essência, tudo continuava como sempre fora.

Ali, excetuando-se alguns poucos elementos, Ela se viu em ambiente familiar, parecido, em muitos aspectos, com os ambientes em que começara a trabalhar, novinha ainda, quando recebera sua missão. A casa era grande, com muitos quartos e salas, um longo corredor, um quintal com um cacimbão coberto por uma tampa de cimento, um galinheiro com algumas galinhas capotes, e plantas: dois coqueiros, uns espécimes de plantas medicinais, um pé de graviola e muitas, muitas plantas ornamentais. O que a surpreendeu, naquela pequena floresta, foi uma papoula enorme, que chegava quase ao topo da gravioleira. Equilibrava-se em sua altura como se tivesse um tronco grosso e forte. As flores cobriam-na de cima a baixo. Na área coberta ao lado da casa, alguns pássaros engaiolados e uma rede armada — aquela rede que, nas moradas do interior, fica armada noite e dia e que não é de ninguém em particular, mas de todo mundo.

Muita gente circulando pela casa — serviçais, familiares de todas as idades, amigos e conhecidos. De vez em quando, alguém entrava enquanto outro alguém saía, prometendo voltar mais tarde. Os mais novos, sentados na área coberta, conversavam em meio tom, brincavam e riam discretamente. Os mais velhos revezavam-se no quarto, naqueles dias, o coração da casa.

Na verdade, eram dois quartos conjugados, com uma porta que nunca se fechava. Na parte menor, uma cama de casal encostada na parede do fundo, um guarda-roupa, uma cômoda e um santuário, nos velhos tempos, sempre com uma vela ou uma pequena lâmpada acesa. E, no alto da parede, um aparelho de ar condicionado de última geração, com controle remoto e outras facilidades pós-modernas.

O espaço maior, apartado da sala de entrada por uma porta larga, muito antiga, que originalmente separava a sala de jantar da sala de copa. Mas, como não tinha utilidade, porque estava sempre aberta, encostada na parede, transferiram-na para o quarto grande. Uma porta forte, trabalhada, que não merecia ficar escondida no interior da casa. Era um cômodo largo e comprido. Nele, um grande e antiquíssimo guarda-roupa, com um grande espelho no lado externo da porta e duas gavetas na parte de baixo; uma cômoda e duas camas: uma de solteiro e outra — de casal, não — de hospital; ao lado da cama um grande cilindro verde de oxigênio, substituído de 24 em 24 horas. No alto da parede, outro condicionador de ar, da mesma marca e modelo do aparelho do outro quarto. Em um canto, uma mesinha com objetos de uso permanente e muitos remédios.

Foi naquele ambiente que, depois de percorrer toda a casa, Ela entrou, com a leveza do imponderável, para não chamar atenção nem incomodar ninguém, se isso, por acaso, fosse possível. Ninguém a viu, mas todos pressagiaram sua entrada e sentiram sua presença imaterial. Alguns se encolheram sentindo uma barra de vento frio; outros se afastaram, e outros mais falaram em surdina, como se tivessem medo de que Ela os notasse. Sabia que raramente era bem-vinda. Sentia muito essa animosidade contra sua presença, mas só cumpria seu trabalho, tão antigo quanto o mundo.

A cama hospitalar estava no meio do quarto e, nela, uma mulher muito idosa — em seus arquivos constavam 94 anos de idade —, já extremamente debilitada, ligada ao tubo de oxigênio e com uma sonda nasal, por onde se introduziam os remédios e um pouco de água (ela não aceitava mais alimentação, nem mesmo líquida) e uma sonda vesical de sondagem de demora. Na testa, um fino cateter saindo de uma veia dissecada.

Ela aproximou-se da cama onde se encontrava um médico — aquele profissional que procura mantê-la o mais longe possível das pessoas. Amigo da família, ele estava passando o fim de semana naquela residência. Ao lado dele, uma enfermeira, que fora aspirar a secreção pulmonar, e duas ou três sobrinhas da doente. Ouvia-se a respiração difícil da enferma e, de vez em quando, um fraco gemido. Ela viu o médico afastar-se da cama e ouviu quando ele sussurrou no ouvido de uma das sobrinhas a resposta a uma pergunta que ela lhe fizera: Impossível prever. É uma mulher muito forte. Ela esboçou um irônico sorriso e voltou a olhar para a doente.

Antes de vir, lera em seus arquivos a história daquela mulher. Casada e sem filhos, criou quatro sobrinhas e ajudou a criar os outros. Alguns a chamavam de Mãe-da-vovó, outros, de Vovó. Era a mais velha entre seis irmãos, três homens e três mulheres, dos quais só viviam ela e uma irmã de 90 anos. Tivera uma vida ativa. Nascera em uma família de políticos, e a Política era uma de suas paixões. Ainda votou na última eleição, realizada exatamente no dia em que completou 94 anos. Tinha um grande coração, amava extremamente a família e era muito querida dos amigos e familiares. Paciente e caridosa, confiava na proteção divina, de modo que raramente se queixava da vida.

Nesse ponto das reflexões, Ela foi alertada por uma inquietação dos que estavam no quarto: a enferma sofrera uma convulsão. O médico se aproximou da cama e fez o que podia fazer, isto é, quase nada. Ela, então, sabendo que o desfecho não seria imediato, resolveu descansar. Recostou-se no sofá da sala de visitas e adormeceu. A qualquer alteração no movimento da casa, despertaria e ocuparia seu posto.











Reflexão a partir de uma festa de aniversário


 (Vicência Jaguaribe)




Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.






 



- Este é o lugar indicado pra gente se sentir mal! – Disse eu à amiga que estava comigo na mesa.
            Ela riu e concordou. Era médico saindo pelo ladrão. Na verdade, médicos veteranos, quase todos septuagenários, entrando ou saindo da casa dos setenta. Estávamos em um ambiente bonito e acolhedor, climatizado – graças a Deus! – que Fortaleza está de fazer tremer as paredes do inferno. Festejávamos os 75 anos de um médico amigo.
            O aniversariante resolvera reunir parentes e amigos e, com pompa e circunstância, comemorar seu 75º genetlíaco (que fóssil linguístico, hein?!), com direito a bolo adornado de 75 velinhas – que requereram tempo e dedos chamuscados para brilhar, bem como sopro forte e a ajuda do seu netinho, para serem apagadas.
            O dono da festa mostrava-se feliz e emocionado. E, enquanto o conjunto tocava um variado repertório de boa música, fiquei matutando. Um aniversário, qualquer que seja ele, mesmo o primeiro, é um sinal de que o aniversariante está ficando mais velho. Talvez seja por isso que algumas pessoas não gostem de festejar seus anos. Mas há outras, como o amigo médico e eu, por exemplo, que gostam. Por quê? Por que certas pessoas gostam de festejar o aniversário? E por que outras não gostam?
            É uma ocasião de reunir familiares e amigos. É um momento em que se é o centro das atenções. É um dia em que se é mimado e presenteado. É uma data em que se pode medir o número de amigos que se tem. Mas é também um dia em que, de certa forma, enfrenta-se a verdade, olha-se, sem máscara, o espelho. Por qual desses motivos gosta-se de festejar aniversário? Talvez por todos eles juntos.
            Esses motivos, juntos, dão a exata medida do ser humano normal – uma mistura de afetividade com necessidade de amor, com vaidade e com a ânsia de ser verdadeiro, autêntico.
Quem sabe não seja essa ânsia de verdade e de autenticidade o que leva certas pessoas a não terem pudor de confessar a idade. De certa forma, festejar o aniversário é admitir, sem titubeio, os anos vividos. É perceber com tranquilidade as rugas chegando, os cabelos brancos apontando, e a memória dando pequenos sinais de esquecimento.
            Alguns dos motivos apontados revelam um pouco do lado positivo e do lado negativo do homem. Revelam a nossa porção egoísta, o nosso bocado vaidoso, o nosso percentual de carência, os nossos 99,99% de necessidade de amor.
            E os que não gostam de festejar o aniversário? Por que não gostam? Há pessoas que até fogem, viajam, escondem-se dentro de casa, desligam os telefones, para que amigos e familiares não as encontrem e deem-lhes  os parabéns. E desses ouvimos expressões muito curiosas e, querem saber, tristes, pessimistas. Reveladoras de alguém que não está satisfeito com os anos vividos, que está decepcionado com a vida:
            - Que é que eu tenho para festejar, me diga?
            - Festejar o quê? O envelhecimento?
            - Pelo meu gosto, dormia da véspera do aniversário até o dia seguinte a ele.
            - Para mim é uma tristeza mais um ano de vida!
            Somente de surpresa se pega em casa uma pessoa dessas no dia do aniversário. Certa vez, consegui essa façanha – surpreendi uma prima que completava 60 anos, com o fato consumado. Convidei alguns parentes e amigos mais próximos, compramos salgados e doces e fomos à sua casa cantar os parabéns. E juro que ela gostou. Porque, em verdade, lhes digo, não há, neste mundo de meu Deus, quem não goste de atenção, quem não aprecie um carinho, quem não necessite de um pouco de consideração.
            Mas o aniversário do amigo médico foi mesmo um momento de glória, bem dosado pelo bom gosto, pela afabilidade do anfitrião e de sua família, pela satisfação que se percebia nos presentes por estarem ali mimando o amigo. Uma pequena pista oferecia aos amantes da dança a oportunidade de mexer-se ao som de um bolero – que quase todos os que estavam ali, bem dispostos e bem vestidos, tinham mais de sessenta anos, sendo, portanto, coroas, no melhor dos sentidos – e, como diz uma prima minha, todo coroa que se preza gosta de bolero.
            E vimos alguns casais que deram um show à parte, parecendo mesmo profissionais da dança de salão. Mas o mais emocionante, nesse momento, foi apreciar o casal que inaugurou a pista e que ficou um bom tempo dançando sozinho – um bonito casal de idosos, de cabelos totalmente brancos, que dançavam com uma disposição e com um ar de felicidade invejáveis. E eu disse para os meus botões: Eles conseguiram chegar lá. Um outro casal, esse ainda relativamente jovem, chamou a atenção pela perfeição dos passos, pela integração nos movimentos da dança, pela leveza com que deslizava pelo salão. A uma expressão admirativa da minha amiga, ponderei: São muitos anos dançando juntos! E, no íntimo, completei: Dançando juntos também na vida. Porque a vida é uma dança, com momentos em que precisamos acompanhar o ritmo do tango, do fado e do bolero, mas que, às vezes, nos libera para seguir o ritmo do samba, do frevo e do mambo.
            Houve um momento, também, de homenagem explícita, quando o genro do aniversariante, com a família em volta, relembrou algumas passagens significativas da vida do sogro e falou de sua abnegação pela profissão e pela família. Um médico amigo também louvou-lhe a contribuição ao meio médico do Ceará e desfiou alguns dos seus títulos e trabalhos.
            Em uma tela, foram projetadas fotografias do aniversariante, acompanhado da esposa, das filhas, do genro, dos netos e de outros familiares. Recordações da infância, da juventude e da maturidade. Memórias, enfim, de uma vida plena, retrato do dever cumprido, do amor e da dedicação recompensados.
           
           




A revelação

 
(Vicência Jaguaribe)



O vaga-lume...
é um lume que vaga,
ou uma vaga com lume?

Não sei.
Mas, quando chega a noite,
o vaga-lume é um rei.

(Vicência Jaguaribe. “O vaga-lume.”)





Há alguns dias, a mãe perguntava que bichinho era aquele que de vez em quando aparecia na parede e no teto de seu quarto-gabinete. Naquele dia, o filho do meio, acadêmico de Biologia, enterrado até o pescoço com problemas no computador, fez de conta que não ouvira. O mais velho, no entanto, acadêmico de Nutrição, foi olhar. Mesmo tendo visto o bichinho de longe, deu um palpite: - Acho que é um vaga-lume. – Vaga-lume!? – Gritaram, ao mesmo tempo, a mãe e a tia. Bem, é só uma impressão. Ele está muito alto. – Precaveu-se o rapaz. Pega ele! – disse a tia. E o sobrinho foi buscar um vidro com um buraquinho na tampa. E capturou o inseto.
            Bem que a mãe sempre dizia: O Rodolfo, como biólogo, será um excelente programador de computador; e o Armando, como nutricionista, um excelente biólogo. E, se é verdade, como diz o povo, que mãe nunca se engana quando o assunto são os filhos!...
            Na infância, o Armando dava a impressão de que seria biólogo ou agrônomo. Tinha gosto pelas plantas e pelos animais. Mas, pelos animais, não era aquele amor que demonstram os que optam por cursar Veterinária. Não lhe passava pela cabeça estudar a enfermidade de um cachorro, tentar a cura de um cavalo doente, por exemplo. Aliás, não era propriamente por animais no geral que se interessava. Interessava-se por insetos. Gostava de fazer experiências que os adultos julgavam meio sádicas: prendia moscas e deixava-as sem oxigênio, para testar sua capacidade de sobrevivência. Prendia abelhas e enchia de h2o o recipiente onde estavam confinadas, a fim de testar sua resistência dentro da água. Pediu à mãe uma lupa e ficava observando o efeito da luz solar, aumentada pela lupa, sobre formigas, baratas e outros insetos. É! Mas o menino resolveu cursar Nutrição, e agora teríamos um nutricionista interessado pelo estudo da vida.
            E, nessa noite, o futuro nutricionista foi buscar o vidrinho pega-insetos e aprisionou aquela pequenina vida. Isolou-se na sala de visitas, cujas lâmpadas foram desligadas. Esperou que o bichinho acendesse sua lanterna, mas ele não quis cooperar. Tirou-o do vidro e colocou-o com cuidado na parede. Sentou-se no escuro, com o olho fixo no bege da sala. Ficou ali, sentado e parado, à espera de uma revelação. Sim, de uma revelação, uma vez que, naquela noite, não havia tempo para um estudo de cunho científico do inseto. Ele já tivera a intuição de que havia ali um vaga-lume. Faltava, agora, o próprio pirilampo revelar-se, acendendo sua lanterninha.
            Passou-se uma hora ou mais. Então, ouviu-se o grito do Armando: Venham ver! É, realmente, um vaga-lume! Todos acorreram à sala e viram. Viram o pequeno inseto luminoso, a lanterna da natureza, piscando para os circunstantes, que, maravilhados, batiam palmas. Depois de muito apreciá-lo, o Armando pegou novamente o pequeno pirilampo e levou-o ao minúsculo jardim que sua mãe cultivava na sacada do quarto. Pousou-o, então, no galho da papoula, que, naquele momento, oito dias após o Natal, ganhava ares de pinheiro natalino.
            No outro dia, em pleno café da manhã, ele deu a notícia à mãe e aos irmãos: Vou concorrer a uma vaga nas Ciências Biológicas. E calou-se. Mas agora, depois de haver passado no vestibular para Biologia, cursar um mês e optar por Nutrição! Pensou a mãe, mas ficou calada. Ele não deu nenhuma resposta às perguntas dos pais e dos amigos. Só ele sabia que se operara nele o fenômeno da revelação. Não fora algo nem pensado, nem calculado. Muito mesmo racionalizado. Simplesmente a coisa clareou em sua cabeça, revelou-se. Não fora propriamente uma escolha, uma decisão sua, no sentido em que se empregam essas palavras. Fora uma revelação. Uma descoberta reveladora.
           
           







A era da imortalidade... ou quase


(Vicência Jaguaribe)



Um primo meu, médico, aliás, já me disse mais de uma vez, a propósito da longevidade das pessoas hoje em dia: O povo hoje não morre mais não. Ninguém quer mais morrer. Ele empregou o verbo querer não no sentido de desejar, aspirar ou pretender, propriamente, pois desejar morrer, nunca se desejou mesmo; talvez tenha usado no sentido de ter em perspectiva, de pensar em, ou algo que o valha.

            E isso é verdade, o índice de vida da humanidade está cada vez mais elevado, embora muita gente pense o contrário. Isso é bom ou ruim? À primeira vista só se percebem as vantagens desta vida mais longa. Afinal, o homem está caminhando na direção do seu maior sonho, a imortalidade e, se possível, a par da juventude eterna.

A ideia da imortalidade sempre fascinou o ser humano. Encontrar o elixir da longa vida é uma esperança acalentada pelo homem, que, por definição, é mortal.

            Em vários mitos do Oriente e do Ocidente, encontra-se essa busca da vida eterna. Já Gilgamesh, o lendário rei sumério, que teria vivido nos inícios do terceiro milênio antes de Cristo, parte em busca da imortalidade. Mas sua jornada fracassa, e ele retorna vencido, porém mais sábio, apto a resignar-se com o destino do homem e aceitar a morte.

            De Gilgamesh aos tempos modernos, o homem vem buscando o impossível: prolongar a vida e a juventude. Durante a Idade Média, houve a prática da alquimia e a busca da panacéia e do elixir da longa vida. Nos tempos modernos, as tentativas se dão por meio da revolução técnica e farmacológica e das pesquisas genéticas.

            Mas pergunto-me se, mais uma vez, como fez ao longo de sua história, o homem não está pondo o carro adiante dos bois. No caso em questão, os bois são as condições necessárias para que a sociedade possa assimilar o contingente de idosos que, a partir de agora, tende cada vez mais a aumentar. Falo das condições de moradia, de alimentação, de saúde, de companhia, de atividade, de cuidados, enfim, de que os idosos precisam para ter uma vida digna e produtiva e não se tornar um exército de zumbis a arrastar-se pelas calçadas da vida.

            Tomadas pela euforia de ter uma vida longa, mais longa do que se esperaria ter até pouco tempo, as pessoas não pensam nas vicissitudes que terão que enfrentar, enquanto a morte não vem. Uma tia minha tinha horror à ideia da morte. Seu maior desejo era poder dizer à neta mais velha: Minha neta, dá cá tua neta. Em sua boca, essa frase não indicava propriamente que ela quisesse ver crescer a quinta geração da família, a partir dela. Era essa uma maneira senão de almejar a imortalidade, pelo menos chegar perto dela.

            Outro dia, estava sentada à espera de ser atendida em uma loja de Informática, quando se sentou ao meu lado, no sofá, uma senhora idosa, simpática e falante. Percebi que ela estava querendo conversar e dispus-me a papear com ela. Primeiro, ela perguntou se eu era de Fortaleza, e, sem esperar minha resposta, emendou quase a história completa de sua vida. Fazia aquela pergunta, porque tinha muita vontade de encontrar alguém da terra do marido, que já morrera. E passou a falar animadamente, recordando o passado: quando o futuro marido chegou à sua cidade, com doze anos, ela só tinha dois anos. Para ela, isso era um sinal de que nós somos manobrados pelo destino; fora o fado que levara aquele menino a uma terra estranha, exatamente para casar com ela. Disse quantos filhos tivera, quantos morrera, como criara os filhos... Foi aí que se aproximou de nós a filha que a acompanhava, que notei estar preocupada com o converseiro da velha senhora, talvez com medo de alguma palavra ou história inconveniente. Mas não, a senhora tinha a conversa aprumada, como costuma dizer o nosso povo. Não disse nenhuma besteira.

            Em determinado momento, perguntei-lhe a idade. Ela olhou-me com um riso maroto e devolveu-me a pergunta: Diga você quantos anos eu tenho. Bem, eu fiquei um pouco desconcertada com sua reação, mas como ela dissera que o marido havia chegado na terra dela em 1918, quando ela tinha dois anos, fiz uma conta rápida e arrisquei, deixando transparecer espanto: A senhora tem mais de noventa!!?? E ela, toda lampeira: Noventa e quatro.

            Eu, realmente, estava muito surpresa e lhe disse, com sinceridade, que lhe daria uns oitenta anos, talvez nem isso. Ainda conversamos um pouco: ela me disse que ainda costurava. Fiquei mais espantada ainda. Sim, ela costurava calções para crianças pobres. E contou-me como as crianças que catavam lixo no aterro sanitário reagiram na primeira vez em que ela levou os calções, e como aprendeu, com a experiência, evitar que elas recebessem mais de um calção, como faziam disfarçadamente. Aí, então, a vendedora que me atendera me chamou para finalizar a compra e eu me despedi dela, que ficou me olhando sorrindo.

            É, o mundo está cheio, hoje em dia, de pessoas da idade da dona... Pois não é que me esqueci do nome dela! Que pena! Mas nem todos os idosos têm a sua fibra. A maior parte deles vive cheia de achaques, permanece com a cara de desgosto, como se pedisse a morte todo dia. Mas vá ela se aproximar, para ver a reação. É mesmo como meu primo diz: Ninguém quer mais morrer.






Mulheres de Atenas, nós?

(Vicência Jaguaribe)



 

 Mas era só o que me faltava! Pois não é que recebo — e talvez muitas de vocês tenham recebido — uma homenagem-propaganda (ou será uma propaganda-homenagem? Acho que o segundo termo diz mais das intenções do emissor), pois não é que recebo, da Editora Abril, uma propaganda-homenagem! Esclareçamos: a propaganda era da Coleção Chico Buarque, com 20 livros-CD que recontam a vida e obra desse compositor. E a homenagem era ao Dia da Mulher, e esta parte faço questão de transcrever litteratim:

Mulheres de Atenas.
Chico Buarque de Holanda.
Uma homenagem da Abril Coleções para cada mulher se lembrar de que a delicadeza e a sensibilidade aliadas à força natural que as mulheres demonstram são características que as fazem subir os mais altos degraus.

Essas palavras vêm precedidas de alguns versos da canção “Mulheres de Atenas”, introduzidos por um oferecimento:

Mulheres, neste dia especial
oferecemos a você um trecho
da música Mulheres de Atenas
do compositor Chico Buarque:

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Vivem pros seus maridos,
Orgulho e raça de Atenas.

Quando amadas, se perfumam,
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas.
Quando fustigadas não choram!
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas.

            Bem, nada contra a Editora Abril, muito pelo contrário, até a admiro por ter sido a primeira editora brasileira a tentar levar ao povo, em suas famosas coleções vendidas a preços acessíveis, os clássicos mundiais da literatura e da música,. Nada contra Chico Buarque de Holanda, aliás, sou sua admiradora desde as primeiras composições. Nada contra as mulheres da Atenas, que viveram o seu tempo, nem contra “Mulheres de Atenas”, obra plurissêmica inteligentemente elaborada.

            Sabemos que a letra dessa canção é de difícil exegese. Sendo uma “obra aberta” como talvez dissesse Umberto Eco, se a conhecesse, oferece-se a mais de uma leitura e até a leituras contraditórias. 

            Alguém já a considerou uma crítica às mulheres de hoje, que via de regra não se submetem aos maridos, têm vontade própria e profissão. O poeta, então, aconselha-as a se mirarem no exemplo das mulheres de Atenas, que não têm gosto ou vontade, / Nem defeito, nem qualidade;/ Têm medo apenas. E parece-me ter sido essa a compreensão dos senhores marqueteiros, uma vez que sugerem a importância de ter   delicadeza e  sensibilidade (como tinham as atenienses?) que, juntamente com a força natural demonstrada pelas mulheres, as fazem subir os mais altos degraus. Esquecem esses senhores que, no mundo machista que é o nosso, delicadeza e sensibilidade são qualidades ridicularizadas e pisoteadas, confundidas com fraqueza. Munida de delicadeza e de sensibilidade, nenhuma mulher subirá nem o primeiro degrau, imaginem os mais altos degraus.

            Outro alguém já viu na canção de Chico Buarque uma crítica irônica que se reporta a algumas figurinhas femininas da atualidade que ainda vivem como as mulheres de Atenas, submissas aos maridos, sempre na sombra deles, sem vida própria, sem opinião, enfim, existem para servir ao companheiro e satisfazê-lo:

Quando amadas, se perfumam,
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas.
Quando fustigadas não choram!
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas.

            Nesse caso, por se tratar de uma alegoria, tudo teria que ser entendido às avessas, como se o compositor dissesse algo como, 1) mirem-se no exemplo das mulheres de Atenas, para saber o que uma mulher não deve ser, ou 2) não se mirem nas mulheres de Atenas, porque a maneira de viver dessas mulheres é retrógada, não atende às solicitações do mundo em que vivemos. É essa, aliás, a interpretação dada à letra da canção pelo Professor José Atanásio Rocha.

            Segundo o ensaísta,
                                           É comum, ainda nos dias de hoje, leitores menos avisados considerarem essa música como uma apologia à submissão e à subserviência feminina ao machismo brasileiro, a exemplo das mulheres da Grécia antiga. Aliás, isso aconteceu com muitas mulheres que se diziam feministas, algumas leitoras vacilantes e obtusas, que criticaram os autores porque julgaram a música “machista” – segundo elas, a letra da música sugeria que as mulheres de hoje tivessem o mesmo comportamento das mulheres da antiga Atenas. Não conseguiram perceber a inteligente ironia do texto... Onde se lê “Mirem-se...” sugere-se que se faça o contrário; dessa forma, o texto é um hino contra a submissão das mulheres que se sujeitam às regras ditadas pelas sociedades patriarcais. O próprio Chico Buarque, em uma entrevista à televisão Cultura, ao ser indagado sobre o pensamento das feministas da época, disse: “Elas não entenderam muito bem. Eu disse: mirem-se no exemplo daquelas mulheres que vocês vão ver o que vai dar. A coisa é exatamente ao contrário”.

Mesmo concordando com a interpretação do ilustre professor José Atanásio, faço uma crítica às suas palavras, no ponto em que ele se reporta à autorizada palavra do autor de “Mulheres de Atenas”, para corroborar sua leitura. Como se costuma dizer, ao ser publicado, o texto torna-se uma entidade mais ou menos autônoma, o que significa que o leitor não deve procurar o que havia na cabeça do autor, ou o que ele quis dizer, mas o que o texto oferece de elementos concretos que possam sustentar uma leitura. Diz-se do texto literário que ele apresenta, no mínimo, duas leituras: uma literal, feita com base nos elementos concretos, e outra que dá aos elementos concretos outro ou outros sentidos. Aguardar ou considerar a palavra do autor, se ainda viver, para dar seu aval a uma leitura, imporia a um texto intrinsecamente plurissignificativo uma única possibilidade de interpretação, o que tolhe a capacidade e a liberdade do leitor no que tange à sua resposta ao pedido de leitura de todo texto. Bakitin já dizia que um texto espera do leitor uma atitude responsiva, que pode ser ou não institucionalizada. Assim, não se pode negar ao leitor o direito de dar um sentido ao texto, sentido que pode ficar longe das intenções declaradas pelo autor em uma entrevista, por exemplo. Ingedore Koch distingue as intenções do autor das intenções do texto. O trabalho do leitor consiste em captar as intenções do texto, não as do autor. Considere-se que não postulo a abertura ilimitada do texto — aquele vale-tudo, aquele juízo de que qualquer leitura é aceitável. Não, o que defendo são leituras autorizadas pelo texto. Também não postulo uma leitura puramente estruturalista que leva em conta somente os elementos textuais, esquecendo que a obra nasceu em um contexto x, com peculiaridades que decorrem de uma conjuntura sócio-histórico-econômico-político-cultural, e que é fruto de um sujeito não totalmente assujeitado às circunstâncias. Um sujeito que tem alguma ou muita, (depende do ponto de vista) liberdade de escolha.

                                   Uma terceira leitura de “Mulheres de Atenas” aponta para uma alegoria. Os versos de Chico Buarque e de Augusto Boal seriam uma crítica ao regime militar, durante o qual os escritores e compositores tinham que se valer de metáforas para criticar o governo, sob pena de serem presos ou terem sua obra censurada e até recolhida das bancas e das livrarias.

            Independentemente das várias leituras que possam ser feitas desses versos, parece-me que, das três apontadas, a primeira leitura, por ser a mais óbvia (mas que nem por isso pode e deve ser descartada) e, talvez, por isso mesmo, foi a que ficou no imaginário popular. E deve ter sido a do propagandista. A expressão “mulheres de Atenas” fala ao brasileiro da mulher submissa, que só faz o que o marido deseja, que lhe perdoa todos os pecados, todas as traições, todas as grosserias, todas as humilhações. Seria a versão clássica antecipada da Amélia da canção “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Amélia era uma "mulher de verdade porque não tinha a menor vaidade / E achava bonito não ter o que comer"  .

            Ser, pois, relacionada às mulheres de Atenas é o mesmo que voltar no tempo, negar a validade de tudo o que foi conquistado e viver uma época em que a mulher não tinha direitos, só deveres. É ser, para o marido, não uma companheira com quem ele poderia partilhar sua vida, mas uma empregada, às vezes, até uma escrava, que lhe prepara a comida, conserva suas roupas lavadas e engomadas, o satisfaz na cama, dá-lhe filhos e cria-os.

            Repudio, portanto, a homenagem que a Editora Abril nos faz, recorrendo a essa canção. Que ideia mais infeliz! Não sou nem nunca fui uma feminista de passeata e de carteirinha. Mas — e principalmente — nunca me imaginei incorporando o modelito das mulheres de Atenas. Daí que a propaganda, em vez de prestar-me uma homenagem, me deixou ofendida e perplexa. Que falta de sensibilidade do profissional que a elaborou e da empresa que a acatou!

            Não sei qual a opinião das outras mulheres que receberam a homenagem torta da Editora Abril e/ou estão lendo este texto. Mas eu, além de me sentir ofendida, experimento uma perplexidade imensa por constatar que há homens — homens, sim, porque essa joia não pode ter sido lapidada por uma mulher — que, na era da informática, dos milagres da ciência e da tecnologia, ainda sentem saudades das mulheres de Atenas e das Amélias.



Carnaval — o território das transgressões




(Vicência Jaguaribe)


O Carnaval parece sustar o tempo normal. É um período durante o qual se penetra em uma dimensão paralela à da realidade. Por três ou quatro dias, o folião desliga-se das obrigações, dos preconceitos, das normas sociais e mergulha em um mundo de faz de conta, permitindo-se transgredir os limites da moral e do bom senso.
            O que se conhece hoje como Carnaval originou-se na Grécia antiga, entre os anos 600 e 520 a.C., de uma festa em que os gregos agradeciam aos deuses a fertilidade da terra e a produção. Tempos depois, os próprios gregos juntamente com os romanos introduziram bebidas e práticas sexuais na comemoração, o que levou a Igreja Católica a condenar os festejos. Em 1590 d.C., a Igreja adotou o Carnaval, fazendo as festividades realizarem-se em cultos oficiais, que excluíam a bebida e a prática sexual — os atos pecaminosos —, descaracterizando-o e afastando-o de suas origens. Somente a partir de 1545, o Carnaval voltou a ser uma festa popular.

            Nos tempos modernos, até certo ponto, ele retorna às origens. Volta a ser uma festa em que há total ausência dos sentimentos de culpa, de pecado e de responsabilidade. As normas sociais de convivência e o respeito ao bem-estar do outro são esquecidos. A nudez dos corpos passa a ser a regra. Bebida e outras drogas constituem uma espécie de ritual de passagem do plano real para o plano da fantasia. E o sexo livre dá à festa o toque de ritual pagão a essa comemoração ancestral.
            Não sei se podemos dizer que no Carnaval há amoralismo ou se temos de reconhecer a prevalência do imoralismo. O apelo sexual na preparação dessa festa atinge níveis de imoralidade. A mídia, em especial a televisão, expõe mulheres nuas ou praticamente nuas, como o atrativo principal dos quatro dias de festa. A vinheta que mostra a mulata globeleza é o exemplo mais contundente dessa exposição desbragada do corpo. A bela mulata aparece nua, com as vergonhas — como diria Pero Vaz de Caminha, se de repente aparecesse por essas plagas em pleno Carnaval — encobertas por desenhos coloridos pintados na própria pele. Não sei se ela usa uma malha fina  transparente, mas se a usa não faz nenhuma diferença: a impressão que fica no espectador é a da total nudez paradisíaca.
            Os governos distribuem gratuitamente preservativos, para evitar a proliferação das doenças sexualmente transmissíveis. E ninguém pode acusar as autoridades de incentivar a prática do sexo livre, mesmo porque ela já se encontra difundida. O que o governo faz é tentar evitar uma epidemia de Aids e de outras moléstias associadas ao sexo desenfreado e irresponsável.
            Nesses quatro dias de folia, adolescentes, ainda quase crianças, experimentam drogas e se iniciam na atividade sexual, sem ter consciência do perigo que os ronda. E os acidentes, os homicídios, os atos de agressão física, de estupro passam a caracterizar tristemente esse período de festas, como se a alegria espalhada em todos os cantos e recantos precisasse de um contraponto.
            É do conhecimento de todos, e já até imortalizada no nosso cancioneiro popular a transitoriedade das relações amorosas iniciadas no Carnaval: "Amor de Carnaval desparece na fumaça / Saudade é coisa que dá e passa". Os relacionamentos que surgem nesse período transformam o amor em um sentimento pequeno, ou até mesmo o reduzem à dimensão puramente física do ato sexual sem compromisso e sem grandeza.
 Nestes tempos pós-modernos, como era de se esperar, o Carnaval deixou de ser aquela comemoração ancestral, pela qual se agradecia aos deuses a fertilidade da terra e a produção. Mesmo porque, hoje, a relação entre o homem e a divindade anda muito precária. Nestes tempos em que impera a falta de pudor e de respeito, o Carnaval só guardou de suas origens pagãs a prática do sexo sem compromisso e sem limites e a ingestão de drogas que levam as pessoas a se sentirem em um território livre das conjunções temporais e sociais, um território que paira entre o real e o irreal, entre a loucura e a sanidade mental, entre a vida e a morte. Sem dúvida, o Carnaval é um período de transgressões, quando o tênue limite entre o amoral e o imoral se rompe.




Guardados e achados


(Vicência Jaguaribe)
             Encontrei, entre meus guardados – ou devo dizer guardados e achados, no modelo de perdidos e achados? É, porque, quando se guardam coisas como essas de que vou falar, é como se as tivéssemos perdido. Daí, precisamos achá-las –, pois, entre meus guardados e achados, encontrei algumas fotografias de minha festa de término do que se chamava outrora de Curso Ginasial.
São três fotografias: em uma, estou com um grupo de colegas, todas mulheres, mais ou menos a metade da turma. Alinhadíssimas, penteadas, de sapato de salto alto, com bolsa de festa e... imaginem e pasmem! de luvas que subiam até a curva do braço! Em outra, recebo o certificado do curso (o meu papel, meu canudo de papel), das mãos de um tio, o Tião, e, na terceira, apareço perto de um microfone, prestes a iniciar o discurso em nome da turma – fui eu que tive a honra de ser a oradora.
Para quem, porventura, nestes tempos em que muitas coisas importantes perderam o valor, venha a admirar-se de havermos tido uma festa para marcar a conclusão do que hoje se conhece como Ensino Fundamental, posso explicar. Havia um bom motivo para a festa. Era aquela a primeira turma do único colégio de Jaguaruana – o Ginásio Cônego Agostinho – fundado quatro anos antes. Nós éramos, portanto, os pioneiros no crescimento da cultura jaguaruanense – os primeiros filhos da terra que avançavam além do Primário, sem a necessidade de deslocar-se para um centro mais adiantado. Essa era uma realidade que merecia uma comemoração com pompa e circunstância, e ela foi feita. Tivemos missa solene, à qual comparecemos fardados; colação de grau, com o recebimento de certificados das mãos das autoridades constituídas – prefeito, juiz, promotor, vigário (que era o Diretor do Colégio), professores, etc. E, para coroar, uma festa dançante, um baile, como se chamava na época, na quadra esportiva, a céu aberto. E, se não me engano – mas provavelmente estou inventando para dar um toque romântico àquela noite –, era noite de lua cheia. E festejávamos a céu aberto, tendo acima de nossas cabeças apenas a lua e as estrelas.
Olhando para as fotos, talvez enxergue muita coisa que outras pessoas não enxerguem, ou talvez enxergue menos do que as outras pessoas. Ou talvez nem uma coisa nem outra. Talvez enxergue somente coisas diferentes. Primeiro, percebo que começamos (nós, os da nossa geração) a morrer: ali, vejo a Socorro Carlos e a Irene, que nos disseram adeus muito cedo. E paro um pouco para pensar nas duas: a Socorro... como era bonita a Socorro! Minha prima em terceiro grau, uns dois ou três anos mais velha do que eu. Tinha umas feições de boneca, uma tez moreno-clara e cabelos escuros. E como cantava bem! Costumava, por isso, coroar Nossa Senhora, no dia 31 de maio. A Irene... magrinha, lourinha e de pele clara, tinha uma inteligência muito viva. Alegre e, ao mesmo tempo, decidida, forte, não costumava levar desaforo pra casa. Era também uma boa esportista. Não sei como nem por que, acabou apaixonando-se pela pessoa errada – um homem grosseiro, de mente estreita, que a obrigou a desistir de seus dois contratos de professora. Morreu a Irene talvez em decorrência dessa união desastrada.
Em seguida, vejo como éramos jovens. Jovens e sonhadoras: sonhávamos em crescer intelectualmente, em cursar uma faculdade, em casar (com um príncipe encantado, de preferência) e ter filhos, em viajar e conhecer o mundo. Algumas almejavam tudo isso ao mesmo tempo; outras queriam somente casar; um terceiro grupo queria somente estudar. Uma delas foi para o convento; a maior parte casou e teve filhos; outro tanto ficou em Jaguaruana mesmo, ensinando; uma pequena parte foi para a capital e dedicou-se aos estudos.
Reparo, ainda, a maneira como nos vestíamos e penteávamos. Lembro-me perfeitamente de meu vestido: um tubinho – estava na moda – de uma fazenda fina bordada, forrado, e... cor de rosa. Sim, cor de rosa, decotado nas costas e sem mangas, sobre o qual usei uma espécie de xale da mesma fazenda, enquanto durou a cerimônia de entrega dos certificados. Trazia o cabelo preso em um coque, complementado por uma franja. E, enquanto olho a fotografia, me pergunto por que usei aquele coque. Não costumava prender o cabelo. Preferia-o solto.
E aquelas fotografias fizeram-me lembrar os três anos em que estudei naquele colégio que nós, os da primeira turma, construímos. Éramos nós que cuidávamos da limpeza do prédio – salas de aula, banheiros, pátios. Fomos nós que, carregando tijolos, ajudamos a construir a quadra esportiva. Éramos pobres, não tínhamos dinheiro nem mesmo para pagar um zelador. Tudo o que almejávamos realizar dependia de nossa disposição para angariar fundos: fazíamos festas, organizávamos jogos e quadrilhas; ensaiávamos peças teatrais e promovíamos desfiles; vendíamos merenda; pedíamos ajuda aos endinheirados da terra; fazíamos campanha de doação no comércio. Enfim, sentíamo-nos verdadeiros pioneiros naquela cidadezinha que não tinha nada que pudesse promover o crescimento da juventude. Nem mesmo possuíamos uma biblioteca. Mas tínhamos vontade de aprender. E quando, após a conclusão do Ginásio, fomos – uns em Fortaleza, outros em Russas, outros mais em Aracati e até em Mossoró – continuar os estudos, não ficamos atrás dos outros alunos. Chegamos até a ouvir elogios dos professores.
Bons tempos! Tempos da inocência! Mas também tempos da audácia sadia e da disposição para enfrentar as dificuldades.








Mais uma vez, o mundo coberto de livros


(Vicência Jaguaribe)



Recebi hoje, por volta de três e quarenta e cinco da tarde, os livros correspondentes ao Prêmio Rachel de Queiroz de Literatura Infantil, em concurso promovido pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. São mil exemplares, dos quais tenho que entregar à Secult uma quota de 40%, o que equivale a quatrocentos livros. Ficam comigo, então, seiscentos livros, devidamente encaixotados.
            Que fazer, Senhor, com seiscentos livros? Com oito caixas cheinhas de livros? Minha vizinha se dispôs a guardar em seu apartamento quatro das oito caixas. Restam-me quatro que, somadas às oito que já estavam comigo, de outros livros, dão um total de doze caixas. Doze caixas, caríssimo leitor e caríssima leitora, dentro de meu apartamento pequeno e já congestionado. Que fazer? Vender — dirão uns. Presentear — opinarão outros. Doar — acrescentarão aqueles mais generosos, embora seja generosidade atirada com pólvora alheia. Mas todos eles têm razão. Algum fim terão esses livros.
            Mas como é difícil vender livro infantil neste país! Levando os três livros infantis que publiquei antes deste (dois de contos e um de poesia), visitei alguns colégios desta capital. Todos me receberam muito bem, acharam os livros muito bonitos, bem editados, etc. e tal, um deles até me homenageou em um sarau de literatura infantil. A homenagem foi feita por uma turma de terceira série, que declamou no palco um poema infantil de minha autoria: “Na terra do faz-de-conta”. Foi muito bonito e emocionante, e agradeço à coordenadora que promoveu o evento, mas ficou nisso. Um só dos colégios — uma escolinha pequena para o Fundamental 1 — me comprou alguns exemplares: sete de um, “Carolina Trovão, seu colar de corais e o raiozinho de sol”, e sete de outro, “A dança dos pirilampos”.
             Ontem, fui ao Instituto Dragão do Mar, participar da programação infantil, que acontece todos os domingos, com jogos e brinquedos de vários tipos, espaço para pintura, contação de histórias, o escambal. Fiz uma exposição dos livros e só vendi três. Tendo em vista o público presente baixei o preço dos livros: ofereci-os a dez reais. Os pequenos passavam, olhavam, folheavam os livros, perguntavam o preço e iam embora. Em  alguns se notava o desejo de ter aquelas obras que encantavam seus olhos. Um até me perguntou: Custa cinco reais? E outro, apontando os livros: É para vender? Eu podia até ter sorteado alguns, mas era tanta criança, que acabaria distribuindo gratuitamente todos os que levara. E eles me custaram caro. Paguei por todos eles.
            Estes que recebi hoje — “Na terra do faz-de-conta” — não me custaram nenhum centavo, só aborrecimento. Pensarei dez vezes antes de participar de uma concorrência promovida por um órgão oficial. É um saco o que se tem de cumprir de burocracia. Esse último dá para doar e presentear. Mas aqui deixo uma grande interrogação: Por que a criança brasileira não gosta de ler? Ou por outra, por que é tão difícil vender livro para criança neste país?
            Dizem as estatísticas que as feiras de livros promovidas nos estados vendem muito livro para criança. Vendem. Mas são aqueles livros que têm mais jogo do que texto; cujas folhas se abrem formando castelos, campos floridos, parque de diversão e outras coisas que agradam os olhos. E o texto, a literatura propriamente dita, onde fica? Cada página traz uma ou duas frases bobinhas, e pronto. Chamam aquilo de livro! Esses são a maioria dos livros que entram nas estatísticas.
            É isso mesmo, estou que nem uma ilha, cercada de livros por todos os lados. Alguma solução, porém, deverá aparecer. Enquanto isso não acontece, vou compondo outros contos e outros poemas para, daqui a algum tempo, encher, de novo, meu apartamento de caixas de livros e repetir o rosário de queixas.





Paz e esperança




(Vicência Jaguaribe)




            Já relatei, em crônica anterior – Falar com as plantas* –, o destino do pequeno vegetal de minha vizinha que hospedei em meu apartamento. Pois é, desistiu de lutar pela vida, assim como algumas pessoas fazem. Achou talvez que não valia a pena continuar neste mundo tão poluído, tão propenso às agressões, tão antivegetal, quando se sabe que sem os vegetais a Terra não tem salvação. Ainda se tentou uma poda radical para obrigá-lo a renascer das cinzas. Foi inútil. Ele deve ter pensado, lá com seus botões, que o ser que renasce das cinzas é um pássaro, não uma planta. Que não quisessem fazê-lo passar por aquilo que ele não era. E, sem mais conversa, foi-se desta para melhor.
            Não sei se existe um céu para as plantas, como afirma Manuel Bandeira, no poema Pradalzinho, haver um céu para os passarinhos:

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

            Acho que não. A existência de um vegetal é puramente física, material, resolve-se aqui pela Terra mesmo. Mas nem por isso é menos meritória do que a dos pássaros e a dos homens. A planta que perde as folhas, para substituí-las por folhas novas, ou a que as perde porque vai dar adeus a este mundo, vasto mundo, que pode até ter rima, mas não tem solução, aduba o solo, torna-o mais rico, propiciando a vida de outras plantas.
            Bem, mas quando a Noêmia viu que a planta da vizinha havia dado seu último adeus, disse-me que, se soubesse que planta era aquela, ia comprar uma igual, para compensar a perda. Acho que, no fundo, ela se responsabilizava pelo passamento do pequeno vegetal. Pois, quando no sábado passado, 10 de julho, fui com ela ao Bosque da Desembargador Moreira, pois queria renovar as raquíticas plantas do meu jardim suspenso, lembramo-nos da vizinha e de sua perda. E pusemo-nos a procurar uma plantinha irmã da que morrera. Perguntávamos aos vendedores a quem tentávamos dizer as características da planta, mas ninguém conseguiu identificá-la. Andamos, viramos, mexemos, e nada. Aí vimos uma só de folhagem como a outra, mas com as folhas de cor e formato diferentes. Apesar da dessemelhança, foi amor à primeira vista. Se havíamos gostado, a vizinha deveria gostar também. E lá compramos o vegetal, que foi posto em lugar de honra na sala de visitas de minha vizinha. E encontra-se lá, todo lampeiro, à espera de elogios.
            Quem disse que os seres deste mundo são insubstituíveis? Gente, bicho, vegetal, mineral, nada ocupa para sempre um lugar no espaço. Nós, humanos – não todos, mas pelo menos uma boa parte –, é que exacerbamos o sentimentalismo e achamos que nós, ou melhor, que cada um de nós em particular é peça única. E cada um, num misto de orgulho e de egoísmo, fica a proferir asneiras que tais: Ninguém te ama como eu. Ninguém faz por ti o que eu faço. Não podes viver sem mim. Sem a minha presença, esta empresa afunda. Tolice! Todos nós temos um sobressalente na pessoa que está ao nosso lado ou em pessoas que nem conhecemos. Nada nem ninguém é insubstituível. É só ter uma oportunidade e boas intenções que cada um de nós é capaz de preencher o espaço do outro, mesmo sem querer ser o outro. Se assim não fosse, o mundo não teria evoluído e ainda estaríamos na Idade da Pedra. 
            Louvem-se as renovações. De gente, de animal, de vegetal, de mineral. Renovar é um procedimento saudável. Que o diga minha vizinha, toda feliz com sua plantinha nova. Está, inclusive, apreciando-a com procedimento de cientista e ontem mostrou-me uma peculiaridade do pequeno vegetal: as folhas nascem totalmente verdes e, com o passar dos dias, vão ganhando um ponto branco. Esse ponto branco vai-se expandindo, vai-se expandindo e termina por dividir com o verde o espaço da folha. E tem-se, dentro de poucos dias, uma folha bicolor, uma folha que mistura paz e esperança, ingredientes de que o planeta Terra está a precisar com urgência, para não desaparecer, qualquer dia desses, em um dos vários buracos negros que povoam o universo.

(* A crônica citada está publicada nesta página, entre as primeiras.)



O sexto dedo


(Vicência Jaguaribe)





Para a Clara, minha sobrinha e afilhada.



A menina, minha sobrinha, era sexdigitária, isto é, nascera com seis dedos em um dos pés – mais especificamente no pé direito. Primeira indagação: a quem saíra aquela garota. Uma prima em segundo grau lembrou-se: sua avó, tia-bisavó do bebê, tinha seis dedos em um dos pés. Segunda indagação: que fazer de uma menina com seis dedos? Operar logo, para livrá-la daquele apêndice indesejável e estranho? O médico desaconselhou. Melhor esperar. Não seria uma cirurgia fácil. O dedo era completo, com todas as articulações.
          E a Clara – foi este o nome que lhe deram – cresceu com seis dedos, sem problemas, sem nenhum resquício de vergonha – expunha o dedo, andando descalça e de sandália aberta. Um problema: dificuldade de comprar sapatos. Deveriam ter sido moldados em uma forma mais larga e mais alta. E o do pé esquerdo ficava sempre mais frouxo. E, como o pé não se acomodava dentro dos calçados, a menina passou a sentir dor. Mas, descalça ou de sandália aberta, ela não enfrentava nenhum problema.
          Menina esperta e, mais que esperta, travessa, desenrolada e valente, não sofria nenhum tipo de preconceito nem de indiscrição dos colegas. Se, por acaso, isso acontecesse, haveria reação, e, quando ela era provocada, o provocador saísse de perto. A mãe, então, resolveu que só providenciaria a cirurgia do famoso pé, quando ela entrasse na adolescência e tivesse consciência do que ia passar.
          Enquanto crescia – o sexto dedo crescendo junto –, a menina brincava. E fazia caminhada, e passeava, e subia morro, e descia dunas, e apostava corrida. E, quando alguém falava em tirar aquele apêndice atrevido, ela reagia:
– Nada disso, deixem meu dedinho no lugar dele.
Em um fim de semana na casa de praia de uma família amiga que tinha três filhos homens mais ou menos da sua idade, a Clara foi brincar de apostar corrida. Dividiu-se a turminha em dois pares. E o par da Clara foi o irmão do meio. Quando o menino teve consciência de que ia apostar corrida com uma sexdigitária, olhou-a resolutamente e soltou:
– Eu mesmo não vou apostar corrida com você, não. Você tem seis dedos, corre demais. Eu nunca vou ganhar.
A menina, em vez de ter raiva, ficar envergonhada ou magoada, torceu-se de tanto rir, rolando na grama. Ela deve ter achado mesmo que aquele sexto dedo poderia dar-lhe certa vantagem na corrida.
 
Quando entrou o ano em que completaria quinze primaveras, como se dizia antigamente, a menina começou a pensar seriamente em livrar-se daquele dedo inconveniente. Mas não se julgue que ela, mocinha, começara a sentir vergonha daquele anexo sem serventia. Claro que não! Isto é, acho que não. Acho que queria mais era resolver o problema da compra de calçados, que se tornara um desafio. Então, antes de agosto – mês de seu aniversário – o dedo foi competentemente extirpado. Mas eu acredito que, mesmo tendo sua vida facilitada ao livrar-se daquele inoportuno hóspede, a menina, de vez em quando, sentia saudades dele. E, mais do que sentir saudades, ela talvez lamentasse a perda de uma marca que, de certa forma, fazia-a diferente das outras crianças. E, quem sabe, constituísse seu charme.


           

           



O mundo coberto de caixas de livros


(Vicência Jaguaribe)



            Entro no meu minúsculo gabinete e olho as sete caixas grandes, duas ou três já abertas, e as outras, fechadas. E pior: espero mais quatro, que não sei onde irão ficar. Uma coisa é certa: se as guardar no gabinete, ficarei impossibilitada de entrar nesse cômodo de meu apartamento, ao mesmo tempo refúgio e ambiente de trabalho. O que guardam essas caixas? Livros, livros e mais livros. Livros para serem divulgados e comercializados. Logo por mim, que não sei vender nem comida a quem está morrendo de fome! E de onde vieram esses livros? De quem são? Essa é uma história mais ou menos longa, que deve ser contada desde o começo, sem inversão temporal.
Começo por dizer que, embora minhas relações com a literatura sejam muito antigas — primeiro, como ouvinte das histórias que me contavam ou liam para mim, muito antes de me alfabetizar; depois, como leitora e, por fim, como professora —, só comecei a escrever sistematicamente aos sessenta anos. Aí abriu-se como que uma comporta, pela qual começou a escapar, em jatos incontroláveis, um sem número de textos: contos, crônicas e poemas; obras para crianças e para adultos. Parecia até que havia dentro de mim um mundo paralelo, onde os acontecimentos se sucediam, acumulavam-se e precisavam ser partilhados. Eles forçavam a saída, e eu não tinha como impedir o processo. E vinham memórias da infância e da juventude; histórias que ouvira de amigos da família e de parentes. Alteradas e complementadas pela fantasia. E fui preenchendo minha vida, minha solidão, minhas horas de ócio com causos e personagens que vinham desse território ao mesmo tempo autônimo e apendicular ao  mundo real.
            Entre os familiares e os amigos, fui formando um público leitor, que, o mais das vezes, era ouvinte mesmo, que me incentivava a continuar. No início, a qualidade dos textos não foi a preocupação maior. Não pretendia, nem pretendo, fazer carreira como escritora. Queria escrever, queria que as pessoas próximas me lessem, queria reconstituir histórias que havia arquivado na memória e, de certa forma, resgatar os tipos humanos que me marcaram a infância e a adolescência. E os textos foram acumulando-se, e as pessoas perguntando pelas publicações.
            Comecei por lançá-los na rede, em sítios literários, em revistas eletrônicas. Depois criei um blog a que chamei palavraengenhosa, onde exponho boa parte dos trabalhos; participei — e continuo participando — de antologias on line e impressas. Agora estou na fase das publicações solo: três obras infantis e um livro de contos para o público adulto.
            Meu gabinete encontra-se, portanto, cheio de caixas de livros vindas das editoras. São edições pequenas como convém a um escritor iniciante, sem nome no mercado, sem público e cheio de dúvidas sobre a qualidade do que escreve. Pronto, cumpriram-se as primeiras fases do processo: decisão e necessidade de escrever; inspiração; seleção de motivos e temas; invenção; ato de escrever e publicação.            Essas fases, que parecem as mais difíceis, acabam sendo café pequeno perto da fase final: a divulgação dos livros.
            Olho mais uma vez para as caixas e formulo um pensamento em forma de pergunta: Que fazer deste monte de livro? Já visitei uma meia dúzia de colégios, para apresentar os três livros infantis. Já os vendi aos parentes e a alguns amigos. Estou estudando a possibilidade de fazer lançamentos, aliás, dois ou três colégios propuseram incluir-me na programação da Semana da Criança, mas até agora nenhuma confirmação. De certo mesmo, só o lançamento, no dia 23 de novembro, pela Oboé, do livro de contos.
            Mas, apesar dos pesares, tenho a felicidade de ver alegria no semblante das crianças quando têm nas mãos os dois livrinhos infantis. Na realidade, são belos livros, muito bem ilustrados, com duas pequenas narrativas delicadas e curiosas. E fiquei muito feliz ainda quando um garotinho de seis anos, filho de uma ex-aluna, para o qual eu havia lido um dos poemas de Brincando no ritmo da poesia, antes de ir para casa procurou o livro e quis que eu lesse o poema mais uma vez.
            Bem, resta agora esperar pela reação dos adultos ao livro de contos. Não acalento muita expectativa. De qualquer maneira, sinto-me feliz por haver tido a coragem de expor meus textos, vencendo o medo da crítica e dos conhecidos. Muita gente gostaria de ter essa coragem, que não sei se é saudável ou não. Será que é desejo de encetar um diálogo com os prováveis leitores ou é irresponsabilidade de minha parte? Será que é vaidade ou loucura? O fato é que fico feliz por haver chegado a esse grau de exposição. Oxalá possa dizer, agora, que exorcizei o fantasma da menininha tímida e calada que sempre me acompanhou.








No Ceará é assim


(Vicência Jaguaribe)



          Chove no Ceará, neste início de ano. Estamos em 21 de janeiro, e o céu mostra-se carregado de nuvens pesadas, que até agora não resolveram descarregar. Nos dois dias anteriores, porém, a coisa foi diferente. No dia 19, a chuva começou de madrugada, choveu muito forte pela manhã, e o resto das vinte e quatro horas foi de neblina, ora mais forte, ora mais fraca. O sol... nem deu as caras.
           O cearense, de maneira geral, gosta de chuva. Para nós, o dia nublado, que promete chuva, é um dia bonito. Ouve-se da boca de todos: O dia está é bonito! E ninguém pense que o sujeito está falando de um dia ensolarado. Não, senhor. Bonito, aqui, significa chuvoso, pronto para derramar sobre a terra esturricada do sertão o líquido salvador.
      Mas a chuva também nos traz sobressaltos. Não como em outras regiões do país. Em Fortaleza, felizmente, quase não há morros e encostas prontos a desmoronar a qualquer chuva mais forte. Vivemos, graças a Deus, em uma cidade plana. Temos áreas de risco, comunidades que sofrem com o transbordamento de um rio, de uma lagoa ou de um canal. Mas nada que atinja as proporções do que acontece no Sul e no Sudeste. O maior problema que temos nesse setor decorre da falta de educação do povo, que lança lixo em qualquer lugar, atitude de que resulta o entupimento dos canais, das bocas de lobo e dos esgotos.
       De raro em raro, temos uma catástrofe maior, como a do açude Orós, em 1960, que na verdade nem chegou a concretizar-se. Houve a ameaça de desmoronamento das paredes do açude, que, se tivesse acontecido mesmo, teria sepultado nas águas todas as cidades do Baixo Jaguaribe. Esses centros urbanos foram evacuadas, mas, por sorte, o açude não arrombou, como se dizia na época. Mas ficou nos habitantes da região o trauma. Para os que, embora crianças, já entendiam o que poderia ocorrer, o Orós é sinônimo de tragédia, de sofrimento. Meu avô já dizia, na primeira metade do século XX, quando se começou a falar na construção do grande açude, que as populações do Baixo Jaguaribe não teriam paz se o reservatório gigante fosse construído.
      Como diz Rachel de Queirós em uma de suas crônicas: o cearense só gosta de mostrar o Ceará quando a chuva promove o milagre da ressurreição; quando, de uma hora para a outra, logo nas primeiras chuvas do que para nós é o período invernoso, a caatinga ressuscita e transforma-se em uma aquarela em que predomina o verde.
     O agricultor e o pecuarista cearenses têm pesadelos com a falta de chuva. Lembro-me do marido de minha tia Sinhazinha, o Tião. Quando chegava fevereiro, ele ficava olhando para o céu com as mãos em concha, procurando nuvens que dessem a esperança de um bom inverno, o que nem sempre ou o mais das vezes não acontecia. Como ele tinha uma fazenda, apavorava-o a ideia da seca: os animais morrendo de sede, o preço da ração nas alturas, o vaqueiro e a família dependendo de sua ajuda para não morrerem de fome.
     Mas, retomando o que estava dizendo no início do texto, a chuva ininterrupta do dia 19 nos fez ficar de orelha em pé. Mas estamos no Nordeste brasileiro, onde pode cair uma tempestade num dia e no dia seguinte aparecer um sol de fritar ovos no asfalto. E vá o sol se fazer de gaiato e esconder-se durante uma semana, para ver o que acontece. Será recebido com vaias, como aconteceu no início do século XX. Depois de uma semana de chuvas, o astro-rei resolveu aparecer em toda a sua majestade. Não deu outra. Transeuntes que estavam nas redondezas se aglomeraram na Praça do Ferreira e vaiaram o sol até cansar. Para eles, naquele momento, sua majestade despira-se de toda pompa e circunstância. O rei estava nu.
      No Ceará é assim.





O pão nosso de cada dia



(Vicência Jaguaribe)





            Na crônica oral da minha cidadezinha, as histórias se eternizam e, com o tempo, vão adquirindo um verniz folclórico, um tom de conto da carochinha. Mas os acontecimentos nela registrados são verídicos – pelo menos uma boa parte deles –, embora tenham sido remodelados de acordo com o gosto e as lembranças de cada contador. Este que narro agora marcou profundamente a população, não só pelo número de pessoas atingidas, mas também pela demonstração inequívoca de nossa vulnerabilidade. Provou que todos nós estamos à mercê dos loucos de plantão, que, disfarçados de pessoas normais, vivem tranquilamente, sem despertar desconfiança. E, acreditem, há sempre um louco de plantão.
            Nas minhas lembranças, o episódio se conserva com todos os detalhes que uma menina de nove anos é capaz de captar e de guardar na memória. Quando o recordo, sou transportada para a infância e experimento a mesma perplexidade e o mesmo medo que senti na época. Narro-o, portanto, partindo de minha perspectiva particular e devo, sem dúvida, não só acrescentar um ponto ao conto, mas também suprimir dele um ou outro ponto. Assim sendo, narro o conto dando pontos com nó e pontos sem nó.
           É, eu não devia ter mais de nove anos e dormia na casa de minha avó paterna, onde normalmente fazia a primeira refeição da manhã antes de ir para casa de meus pais. Naquele dia, acordara mais cedo, tomara café e fora para casa. Precisava estudar, pois estava no período dos exames finais. Sentada na mesinha das crianças, comecei a estudar História do Brasil enquanto a mamãe preparava o café do papai e dos meus irmãos.  Acabara de entrar na nau Santa Maria, uma das três caravelas de Colombo, a nau capitã, quando vi uma de minhas tias aparecer na sala, muito nervosa, chamando a irmã. Alguém já tomou café, aqui? Não deixe ninguém comer pão... o pão está envenenado. Minha mãe, acostumada aos exageros da irmã, ainda quis achar que aquela era uma informação equivocada. Alguém havia brincado com a tia Adélia, ou ela entendera errado alguma história. Não, Miriam, o pão da padaria do Zé Preguinho foi envenenado. Já tem muita gente passando mal. A Ana Coelho (a harmonista da Igreja) foi pra casa vomitando. Minha mãe lhe respondeu que, graças a Deus, ninguém ali ainda tomara café, e ela dirigiu-se à casa do irmão que morava perto, para prevenir a família.
            Mal terminou de falar, minha mãe olhou para mim, com um de preocupação. Você tomou café na casa da sua avó? Não tive coragem de falar, confirmei com a cabeça. Você sente mal-estar, vontade de vomitar? Não, eu não sentia nada, estava bem. Então, ela me mandou correr até a casa de minha avó para avisar sobre o que se estava boatando na rua. Mas lá todo mundo já tomou café. Àquela altura, abandonara a caravela, que continuou viagem sem mim. Deixei os livros e voei pelas calçadas. Já se viam crianças voltando da escola, pálidas e com cara de choro. Adultos escorados nas paredes vomitando. Pessoas de todas as idades andando encurvadas, numa demonstração de sofrimento.
            A notícia já se havia difundido pela cidade, mas, infelizmente, era tarde para algumas pessoas. Minha tia Marinete, nervosa e hipocondríaca, já se encontrava deitada e vomitando, dizendo que ia morrer. Na casa de minha avó era um entra-e-sai de pessoas que queriam remédio ou apenas maiores informações sobre o que estava ocorrendo. O certo é que todas as famílias ou quase todas foram atingidas por aquela sandice. Em todas as casas havia pessoas passando mal. Umas mais, outras menos, dependendo, naturalmente, não só da quantidade de pão que consumiram, mas também da parte da massa que entrara na composição do pão que lhes coubera. O veneno não se espalhara igualmente pela massa. Daí, que havia pessoas como eu, que, apesar de haver ingerido o alimento, ainda não haviam sentido nada, enquanto outras passavam mal e corriam risco de vida. Os primeiros sintomas – as náuseas – experimentei já a manhã adiantada. Vomitei uma única vez e me obrigaram a tomar leite misturado com magnésia. E eu fiquei praticamente livre dos outros sintomas. Mas a tia Neta e a dona Ana Coelho, principalmente a dona Ana, estiverem muito mal e ficaram doentes por algum tempo. O que me salta à memória é que, em determinado momento do dia, faltava magnésia na farmácia e leite nas casas e nos pontos de venda.
            O caso teria alcançado proporções de tragédia, se a quantidade de veneno posta na massa fosse maior. Mas, graças a Deus, o responsável pelo atentado, ou por não ter dinheiro para comprar uma quantidade maior da substância ou por só querer causar medo ou impressionar, usou pouco veneno para pôr seu plano em prática.
            Mas, finalmente, quem perpetrara aquele crime? Quem era o responsável por aquela quase tragédia? Ora, um dos padeiros, brigado com a namorada, quis vingar-se dela, ou quis impressioná-la, brincando de Deus. Felizmente seu ato tresloucado não deixou nenhuma sequela nos habitantes da cidadezinha nem provocou nenhuma morte, nem mesmo a da namorada. Sem dúvida e por sorte, a montanha pariu um rato.
            Não me perguntem se o quase homicida em massa foi preso, se se abriu processo para apurar o caso, porque não sei. É um detalhe de que não me lembro. Mas, como estávamos no interior do Nordeste brasileiro, em plena década de cinquenta, a coisa pode ter sido deixada por isso mesmo. Não posso, porém, afirmar nem desafirmar nada a esse respeito. O que posso atestar é que o pão que nos foi dado naquele dia não recebeu a bênção de ninguém.
            Encerro aqui a narrativa deste episódio, assegurando a sua ocorrência. Que as gerações mais novas o guardem na memória, para contá-lo aos filhos e netos, ou reescrevam-no com mais apuro do que eu.





Ai de nós, ai de nós!


(Vicência Jaguaribe)


[o escrete] é a pátria em calções e chuteiras,
a dar rútilas botinadas, em todas as direções.
O escrete representa os nossos defeitos
e as nossas virtudes.
Em suma: - o escrete chuta por
100 milhões de brasileiros.
E cada gol do escrete é feito por todos nós.
(Nélson Rodrigues)




          Bombas continuam a pipocar, às vezes, mais perto, às vezes, mais longe. Não sei de onde elas partem, nem sei por que motivo estão sendo disparadas. São cinco e meia da tarde do dia dois de julho de dois mil e dez, data em que o Brasil perdeu a partida das quartas de final para a Holanda, tendo, portanto, que voltar para casa mais cedo.
          Certa melancolia paira no ar da tarde quase noite. Cada brasileiro que acompanha a Copa do Mundo e se empolga vendo a seleção brasileira jogar está a estas horas lamentando a derrota, principalmente pelas circunstâncias em que se deu. O Brasil entrou em campo com uma disposição de campeão. Fez um primeiro tempo belíssimo, com uma desenvoltura que nos fez lembrar das grandes seleções dos tempos idos – a de 1970, por exemplo. Aos dez minutos, fez um gol daqueles de mestre, com a bola passada para Robinho por Felipe Melo. O mesmo Felipe Melo, que depois atrapalhou a defesa do goleiro Júlio César, fazendo um gol contra – o trágico gol do empate – e, pior, foi expulso de campo. Aí, tudo que já estava dando errado ficou pior. Resultado: 2 a 1 para a Holanda. E a Laranja Mecânica nem estava com esse gás todo.
          Por isso me pergunto quem estará soltando bomba a esta altura do campeonato. E por que quem está soltando bomba está a fazer isso. Sei, de ouvir dizer, que alguns brasileiros desnaturados torcem, desde o início da Copa, pela Argentina de Diego Maradona. Torcem pelo adversário maior do Brasil, somente porque não queriam o Dunga como técnico da seleção, porque o Dunga não convocou o Ronaldinho Gaúcho e outros jogadores que não sei nem quais são. E, como em toda derrota deve aparecer um bode expiatório, vamos ouvir, por muito tempo ainda, as maldições contra o Dunga, a execração do Felipe Melo, as palavras desrespeitosas contra o Kaká – que, realmente, não mostrou a que foi, na África do Sul. Serão essas as reações, como se as coisas se explicassem tão ingenuamente.
          Onde está o entusiasmo e o patriotismo demonstrados nas arquibancadas, quando a seleção brasileira entrava em campo e quando se perfilava para cantar o Hino Nacional? Ser patriota no momento da vitória é muito fácil. Mais fácil ainda é apontar culpados individuais, quando a culpa está sempre montada em uma conjuntura.
          É hora de reler algumas crônicas de futebol escritas pelo grande Nélson Rodrigues e fazer, a partir delas, um exame de consciência. Em A Pátria em chuteiras, crônica de 1976, o autor pergunta o que é o escrete, para nós, brasileiros, e nos dá uma resposta antológica:

                    [o escrete] é a pátria em calções e chuteiras, a dar rútilas botinadas, em todas as direções. O   escrete representa os nossos defeitos e as nossas virtudes.
Em suma: - o escrete chuta por 100 milhões de brasileiros (e agora eu pergunto – quantos somos hoje?). E cada gol do escrete é feito por todos nós.

          Em outra crônica, esta de 1966, O escrete precisa de amor, ele fala na relação que deve haver entre jogadores e torcedores – uma relação de amor: Eis a verdade inapelável e eterna: - só o grande amor faz o grande escrete. [...] O escrete quer sentir também a nossa admiração. Mas não foi esse o sentimento que se viu demonstrado pela seleção que acaba de perder para a Holanda. E o cronista continua, analisando a postura do povo brasileiro em relação à disposição de elogiar e de insultar:

         Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: - só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio.

          É o retrato perfeito do brasileiro – o brasileiro, minha gente, não é o homem triste, como queria Paulo Prado: Numa terra radiosa vive um povo triste. Muito menos o homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda. É, antes, o povo que berra o insulto e sussurra o elogio. Por isso não deveria admirar-me ao ouvir as bombas nesta tarde-noite de sexta feira – 02/07/2010 –, nem me perguntar por que e por quem elas pipocam. Elas devem pipocar pela derrota do Brasil para a Holanda e pelos meninos do Maradona. Ai de nós, ai de nós!

02/07/2010





O Centauro que existe dentro de cada um de nós



(Vicência Jaguaribe)


Agora que não há mais cascos
evidentemente não é possível,
mas a vontade que tenho é de
dar patadas no chão [...]
(Moacyr Scliar)


          

          Só agora – digo, há uns três meses – li O centauro no jardim, obra de Moacyr Scliar, lançada em 1980, pela Nova Fronteira. Lia-a em sua 10ª edição, trinta anos depois de seu lançamento. É um romance na linha da narrativa fantástica, que conta a história de uma criança centauro, nascida em uma família judia de origem russa. A história cobre o período que vai de seu nascimento em uma pequena fazenda no interior do Rio Grande do Sul, em 1935, até 1973, quando o protagonista, adulto, casado e pai, mora em São Paulo.
          O livro, pela minha ótica de leitura, põe em evidência duas grandes questões que entravam a trajetória humana pela terra: a falta de integridade psíquica e o grito das origens. Guedali, o centauro que protagoniza a história, vê-se dividido entre suas duas naturezas, a humana e a animal, e deseja, acima de tudo, ser um homem integral, isto é, ver-se livre de sua metade equina. Mas, quando consegue atingir esse objetivo por meio de uma intervenção cirúrgica, lamenta haver perdido sua outra metade, aquela que fazia dele um ser primitivo, instintivo e livre. Na verdade, porém, ele continua mantendo dentro de si esse outro lado, mesmo que se apresente com a aparência humana: “Como um cavalo, na ponta dos cascos, pronto a galopar pelo pampa. Como um centauro no jardim, pronto a pular o muro, em busca de liberdade”. Com esses dois enunciados, Scliar encerra a obra.
          Enquanto lia o romance, não podia deixar de pensar que nós, seres humanos, somos, na realidade, um contingente de centauros, seres divididos, cujas duas metades não se cansam de se digladiar, uma tentando suplantar a outra.
          Junito Brandão, no seu Dicionário Mítico-etimológico, vê o centauro como um símbolo da concupiscência, a qual rebaixa o homem ao nível animalesco, se não for adequadamente controlada pelo espírito. Leva, ainda, o simbolismo para o campo da Psicanálise e esclarece:

                    Projeção nítida da dupla natureza humana, uma bestial outra divina, os Centauros traduzem os   incontroláveis instintos selvagens, transformando-se em imagens do inconsciente, que se apodera da pessoa, entregando-a aos impulsos e eliminando toda e qualquer luta interior.

          Pois bem, todos nós somos centauros, isto é, seres divididos entre realidades e sentimentos opostos. Somos metade matéria, metade espírito; metade amor, metade ódio; metade instinto, metade consciência; metade razão, metade emoção; metade homem, metade mulher. E vamos pela vida nessa briga com nós mesmos, ora deixando uma metade prevalecer sobre a outra, ora – o que acontece raramente – conseguindo um equilíbrio entre as duas metades. E nunca (nesse ponto discordo das palavras de Junito Brandão) cessa a luta interior dessas metades inconciliáveis. Quando uma se manifesta, a outra não é descartada, mas fica represada, podendo emergir ao menor toque do cajado de um Moisés ocasional.
          Quantas vezes não nos desconhecemos em nossas atitudes selvagens, em nossas palavras de ódio, em nosso desequilíbrio emocional, em nossos instintos, que gritam do inconsciente e saem porta a fora? Parecemos a nós mesmos e aos outros que somos outras pessoas, que fingimos toda a vida ser alguém diferente, e que só naquele momento estamos nos revelando, botando as manguinhas de fora, como diz o vulgo. Quando, na realidade, estamos somente expondo nossa outra metade, que, quieta, esperava o momento propício para manifestar-se.
          Às vezes, a manifestação da outra metade do centauro dá-se em nível individual; às vezes, dá-se em nível coletivo. Que aconteceu, por exemplo, com a Alemanha de Hitler? Onde estava escondida a metade animal do povo alemão, tão bem disfarçada por sua metade humana, representada por artistas excepcionais e por filósofos incomparáveis. Estava lá dentro de cada um. Cada filósofo, cada músico, cada escritor alemão havia empurrado para o inconsciente a sua metade animal, enquanto se mostrava em sociedade em sua metade humana. Não, não se tratava de máscara, de fingimento. Era uma questão de divisão da personalidade, inerente ao ser humano. De repente, animada por uma conjunção excepcional de fatores, eis que a natureza equina do centauro manifesta-se incontrolável e instala-se. E entrona-se até que outra conjunção de acontecimentos a force a recolher-se. Mas não para sempre. Ela está lá, de sentinela, de atalaia, à espera de outro momento adequado.
          O que salva a humanidade e cada ser humano em particular é que a metade humana que compõe a parte de cima do centauro é muito poderosa. Não é à toa que tem em sua composição a cabeça, que domina o restante do corpo e faz a outra metade recolher-se – quis dizer à sua insignificância, mas seria um erro – recolher-se ao seu labirinto sombrio. E exatamente porque se recolhe à sombra labiríntica é que ela pode ser controlada pela outra metade, que recebe a energia da luz solar. Somos, assim, um centauro que tem uma metade na sombra e outra na claridade.
          Não resta dúvida de que algumas pessoas, por razões que desconhecemos em parte, conseguem controlar melhor e por mais tempo a metade equina do centauro, enquanto outras não conseguem fazê-lo. As que conseguem administrar bem essa divisão são consideradas boas, magnânimas, amáveis, cordatas, pacientes, chegando às vezes ao patamar do heroísmo e até da santidade. As que não conseguem são consideradas marginais; são os sádicos, os assassinos, os estupradores, os ladrões. Mas não nos enganemos: quer sejamos santos, quer sejamos assassinos em série, somos todos centauros. Precisamos estar em constante vigilância.








A África que eu não conhecia


20/06/2010


(Vicência Jaguaribe)



        Vi, no Jornal Nacional, uma cena inimaginável, pelo menos para mim: pinguins sozinhos ou em bando, circulando por um centro urbano e até atravessando uma rodovia. Logo eu, que, na minha santa ignorância, na minha vergonhosa carência de conhecimentos gerais, pensava que pinguins só viviam nos polos. E o mais surpreendente – para mim, repito – é que a cena foi gravada na África do Sul. E eu, meu Deus dos ignorantes, nem desconfiava que na África existissem regiões onde a temperatura chegava a zero ou mesmo a um ou dois graus negativos, e até podia nevar.
      Acostumamo-nos a ver a África como o continente do sol, o continente dos desertos, o continente do grande Saara, onde os hebreus passaram quarenta anos perdidos. Para nós, a África é a África na qual Agá, por vontade de Deus e por exigência de Sara – Expulsa esta escrava com o seu filho, porque o filho desta escrava não será herdeiro com meu filho Isaac –, foi banida do seio de Abraão com o filho Ismael, que quase morre de sede sob o sol escaldante.
         Para nós, leigos na ciência dos estudos da terra e de seus climas, a África é a África de onde vieram os escravos negros. E, segundo aprendemos depois, os traços físicos da negritude decorriam da exposição por milênios ao clima daquelas terras. Aqueles traços eram, pois, uma adaptação ao clima do ambiente hostil em que viviam. E, segundo consta nas pesquisas modernas, todos os indivíduos da espécie Homo Sapiens tinham essas características. Depois, com as levas migratórias, quando a humanidade começou a deslocar-se para climas mais frios, para se adaptar a exigências climáticas diferentes, é que foram adquirindo outros traços.
         Em reportagem recente da revista VEJA, com o sugestivo título Unidos pelo futebol... e pelo DNA, que mostra como são sem fundamento as teorias racistas, lê-se o que segue:

                    O Homo Sapiens tinha uma população inteiramente formada por indivíduos de pele escura    quando saiu da África. As variações genéticas que tendem a produzir pele clara certamente ocorreram indistintamente em todos os contingentes humanos. Mas elas só se firmaram como mutações vantajosas para os grupos humanos que foram povoar as latitudes mais baixas do globo terrestre, onde o efeito protetor da melanina, o pigmento que dá cor escura à pele é desnecessário – e até prejudicial por filtrar a fraca insolação das regiões frias, impedindo a absorção da vitamina D garantida pelos raios ultravioleta da luz solar

          A África que conhecemos, ainda, é a África famélica, marcada por secas periódicas, esperando a boa vontade e o bom alimento dos países ricos, para não desaparecer da face da Terra levada pela desnutrição.
          A África que conhecemos, finalmente, é a África cantada por Castro Alves, a África do poema “Vozes d’África”, que a situa na antessala do inferno, como diria minha avó:

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

          É uma África que, climaticamente, está mais para o calor sufocante das regiões mais áridas do Nordeste brasileiro do que para o frio europeu:

Eu nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador.
Quando subo às pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!...”



          E ficamos – ou eu fiquei – nesse patamar de conhecimentos incipientes sobre o grande Continente que, hoje, sabemos, é o berço da humanidade. E restamos todos de queixo caído, diante de uma África trazida até nós por obra e graça da Copa do Mundo de Futebol. Estarrecemo-nos vendo os repórteres da Rede Globo trajando os modelitos europeus de inverno, de cachecol, de casaco e de luvas. E admiramo-nos ao saber que o intenso frio presenteou a Fátima Bernardes com um problema de garganta que a levou a ser substituída por outro apresentador. E vemos, quase sem querer acreditar, os jogadores com um uniforme especial de mangas compridas e até de luvas. E apreciamos boquiabertos, a fumacinha escapando da boca desses jogadores.
          E, para completar, nos últimos dias, tivemos a visão dos pinguins, que deve ter estarrecido não só a mim, mas a muita gente.
         Bem, caros brasileiros fashions e endinheirados, deem um pouco de descanso a Bariloche. A partir de agora, brinquem de europeus também na África do Sul.






Pecado

(Vicência Jaguaribe)


          Eu só tinha dez anos na época e não entendia a proibição. Ela só instigava minha natural curiosidade infantil.
          O pároco da cidade soprara, no confessionário, aos meus ouvidos inocentes, o que dizia a todos. Que descessem a calçada quando passassem em frente à casa de seu Paulo Severo. Era pecado circular por aquela calçada. E era um pecado maior ainda olhar para dentro da casa dele. Não tive coragem de perguntar sobre o porquê do interdito, nem falei dele a ninguém, nem mesmo às amigas mais íntimas, que naturalmente já deviam ter ouvido do padre a mesma recomendação.
          Somente alguns anos mais tarde é que entendi o motivo da interdição: seu Paulo Severo deixara a esposa com os dois filhos e fora viver amasiado com dona Leda, com quem teve mais três filhos. Amasiado... ouvi essa palavra várias vezes na infância.
          Um dia, perguntei à minha mãe o que era uma mulher amasiada. Ela olhou-me com espanto, mas respondeu:
          - É uma mulher que vive com um homem sem ser casada com ele. Mas isso não é assunto para você. Esqueça isso! Onde é que você aprende essas coisas!?
          É claro que não tive coragem de dizer que, às vezes, a gente aprendia essas coisas nos lugares mais improváveis. E que aquela eu aprendera ou ouvira na igreja. E, mais especificamente, no confessionário, da boca do vigário. Saí de perto de minha mãe, para evitar outras perguntas.
          Acontece que, naquela cidadezinha, não havia uma mulher mais bonita do que dona Leda: loura e de pele clara, de olhos esverdeados, andava com uma elegância que não se via nas mulheres do interior. Falava com desenvoltura, mas sem afetação. E seu sorriso era franco e acolhedor. Na minha cabeça infantil, a figura de dona Leda não podia estar associada ao pecado. Beleza e pecado não combinavam.
          A casa de seu Paulo Severo e de dona Leda, com suas duas varandas sempre abertas, passou a ser para mim uma espécie de fetiche. Pisava na calçada com o cuidado e o respeito de quem entra em um templo. Em vez de descer para não passar por ela, fazia exatamente o contrário: se vinha caminhando pelas calçadas, continuava por elas quando me aproximava da casa do pecado; se vinha pelo meio da rua, quando me aproximava dela, subia a calçada e ultrapassava-a , lentamente.
          Hoje, revendo esse meu comportamento com os olhos do adulto, ainda me pergunto: Por que aquela casa e aquela família tanto me fascinavam? Era somente pela beleza da dona Leda? Pelo aspecto acolhedor da casa? Pelo gosto infantil de contrariar as ordens dos adultos. Pelo peso do pecado e, consequentemente, da interdição que pesava sobre elas? Ou será que aquele meu fascínio resultava de todos esses ingredientes reunidos e liquidificados? Não sei. Francamente, não sei.
          O que sei é que a menina que eu era, na época, não conseguia passar pela casa do seu Paulo Severo, sem olhar com curiosidade para o seu interior, na tentativa de apreciar a beleza da dona Leda, mas também de sondar os mistérios da casa do pecado. Mas eu sabia que, agindo daquela maneira, arriscava-me a ser castigada. E, pior, desafiava o peso da excomunhão da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, representada, na cidadezinha, por um vigário de mente estreita, moldada pelos valores inquisitoriais. Sabia, sim, mas achava que valia a pena aquela transgressão.





Alguém dá notícia das tabelinhas da Copa?



(Vicência Jaguaribe)





          Não importa que este seja o enésimo texto escrito sobre a Copa do Mundo. Não importa que ele não apresente nada de novo sobre o assunto. Não importa a cara que o leitor fará ao perceber que é mais um. Nada disso me preocupa neste momento. Daí que vocês poderão perguntar: Então, por que e para que escrevê-lo? E minha resposta será a mais prosaica do mundo, mas também a mais forte e convincente: Porque quero. Porque me deu vontade. Pois é, irmãos, não existe melhor razão para que um texto seja escrito do que a vontade de seu autor.
          Bem, com esta justificativa para lá de coerente com o pretenso liberalismo das sociedades do nosso tempo, comecemos.
          A festa de abertura da Copa se aproxima, e eu – torcedora de Copa do Mundo, aquela torcedora bissexta, que só se manifesta de quatro em quatro anos – estou meio inquieta, por uma razão muito simples: ainda não vi aquelas famosas tabelinhas que se distribuíam nas copas anteriores. Nem uma para remédio. Por onde andam aquelas tabelinhas de papel que os jornais traziam como encartes, para que pudéssemos acompanhar o desenrolar dos jogos? Para que pudéssemos, a cada fim de jogo, pegar uma caneta ou um lápis e registrar os resultados? Já perguntei isso a muita gente e ninguém parece dar importância à minha preocupação. Alguns fazem cara de pouco caso, como se eu estivesse preocupada em saber a cor da cueca que o Dunga usará no primeiro jogo do Brasil. Ou em ter certeza do modelo de brinco que gostariam de usar em cada jogo os fashions Robinho, Luís Fabiano, Adriano e Daniel Alves. Sim, que gostariam, porque usar mesmo não vão poder. O que é uma pena! Como ficam bonitinhos de brinco!
          Mas como é que a gente vai acompanhar a Copa, saber quem foi eliminado, quem vai para as quartas de final, para as semifinais e, finalmente, quem vai disputar la grande finale sem ter nas mãos uma tabela? Uma amiga me disse que talvez as tabelas sejam virtuais, e a gente tenha que acessá-las via Internet. Pronto, perdeu a graça. Nunca vai ser a mesma coisa. A tabelinha de papel ou de papelão, a gente punha dentro do bolso ou da bolsa e, quando em uma roda de discussão – sobre a Copa, naturalmente, pois durante esses dias a gente só fala na Copa –, se tinha alguma dúvida sobre o resultado de um jogo, sobre a possibilidade de classificação de um país de nome esquisito, perdido nos confins da África ou da Ásia, era só puxar a tabelinha e ficava tudo esclarecido. E agora? A gente vai ter que se levantar da roda, ligar o computador, acessar a Internet, para procurar a tabelinha? Quando voltar, a roda já se desfez ou está todo mundo discutindo outro jogo ou outro resultado. Isso, se a Internet não estiver fora do ar.
          Talvez seja por causa da falta das tabelinhas que sinto algo estranho no brasileiro ar da Copa do Mundo da África do Sul. Talvez um certo desânimo, um certo pudor de enfeitar o carro com as bandeirinhas do Brasil, um certo mau pressentimento de que a Azzurra e não a Canarinha levará a taça este ano, o que fará a Itália alcançar o Brasil no número de campeonatos conquistados – que Deus nos livre de tal infortúnio!
          Não sou nenhuma pitonisa, não presido nenhum oráculo, mas não sou de dar as costas a indícios ou sinais. Assim sendo, peço às autoridades competentes – e às incompetentes também – que mandem confeccionar as tradicionais tabelas para que se possa acompanhar a Copa. Coisinha barata, sem pretensão. De papel reciclado, mesmo. Ainda dá tempo. Depois, não digam que não avisei.





De predador a protetor


(Vicência Jaguaribe)



           Recebi de um amigo um clipe em que um leopardo surpreende e mata um babuíno. Era um predador em ação, que atendia aos apelos dos instintos e da espécie. O babuíno era a caça que naquele momento atendia as necessidades do caçador. Era o mais fraco que se deixava aprisionar pelo mais forte. Era a lei da selva. Era a lei da vida – vence o mais forte: Ao vencedor, as batatas, nas palavras do mestre.
       Morta a presa, o predador transporta-a a um lugar seguro, onde possa saboreá-la sem dividi-la. Mas eis que, chegando ao local do banquete, o leopardo vê, desprendendo-se do espesso pelo do animal morto, onde até aquele momento estivera protegido e invisível, um filhote de babuíno. Naturalmente assustado ou, pelo menos, surpreso, o leopardo abandona a caça morta e volta-se para o pequeno animal. Mas, surpreendentemente, não o ameaça, não o ataca. Aproxima-se dele e tenta conquistá-lo. Age como uma mãe. Leva-o a um lugar seguro e fica de vigília. Mas o animalzinho é esquivo e não quer papo com o predador. Em determinado momento, tenta fugir e fica em perigo, quase escorregando de um galho alto. O leopardo segura-se em um galho mais baixo e luta para resgatar o pequeno babuíno, puxando-o pelo rabo. Finalmente consegue pôr o bichinho em lugar seguro e deita-se a seu lado. Na noite fria, o babuíno deixa-se aquecer pelo calor daquele predador de coração materno. E os dois – predador e presa – dormem juntinhos, como se fossem mãe e filho.
          Parece história de carochinha, mas não é. Também não é a primeira vez que se ouve história de animais que protegem bebês de outra espécie. Lembro-me, neste momento, de pelo menos três: a loba que acolheu, protegeu e criou Rômulo e Remo, os lendários irmãos gêmeos que teriam fundado a Cidade Eterna, Roma. O casal de macacos ou uma fêmea, não sei bem, que salvou da morte certa um pequeno lorde inglês, e o criou como se fosse um de sua espécie – Tarzan, personagem de ficção criado por Edgar Rice Burroughs. E, finalmente, Mowgli, o menino indiano, criação de Rudyard Kipling, que, perdido na floresta, foi encontrado e criado por uma família de lobos. Fica claro, acho, que as lendas modernas de crianças criadas e protegidas por animais foram inspiradas na lenda romana de Rômulo e Remo.
         Mas a história que inicia este texto não é lenda. Quem quiser pode vê-la em um clipe. Bem, pelo menos acho que não é montagem. E essa historinha ilustra muito bem o instinto materno, que pode ser despertado não só nos seres humanos, mas também nos animais. E mais: que esse instinto não está necessariamente relacionado com a genética. Quero dizer: podemos amar como filho uma criança que não foi gerada por nós, que não tem nosso sangue. O amor nada tem a ver com a genética, ou pelo menos não obrigatoriamente.
        Quando vi o clipe que mostra o encontro do leopardo com o pequeno babuíno, lembrei-me de que escrevera, às vésperas do dia das mães, um texto intitulado Uma homenagem às especialíssimas mães dos filhos dos outros, onde teço louvores às mulheres que adotam e amam crianças que não foram geradas em seu útero e que, portanto, não têm seu sangue. Centralizo a homenagem na senhora Gercila Rodrigues Vieira, que dedicou sua vida a essa missão.
         Para mim, não há ação mais humana, mais engrandecedora nem mais merecedora de louvores do que a de adotar uma criança. Mas adotar e amá-la como se filho fosse. E não é toda mulher que consegue essa façanha. Em algumas fica sempre o ranço, o desgosto por não ter gerado um filho de seu próprio sangue. Mas, graças a Deus, temos muitas Gercilas neste mundo recheado do imprevisível, que quebram as barreiras dos preconceitos e amam, educam e protegem crianças que, sem essa oportunidade, estariam perdidas. Louvem-se essas mães dos filhos dos outros.
        Mas, enquanto existem mulheres magnânimas como essas, existem psicopatas, ou simplesmente pessoas más, como a Procuradora de Justiça, Vera Lúcia Sant’Anna Gomes, de 57 anos, que, sob o pretexto de que querer adotá-la, levou para casa uma menina de apenas dois anos e descarregou sobre ela sua sanha e seu desequilíbrio mental. A criança, seriamente agredida, seria, segundo boatos dos vizinhos, sacrificada em um ritual de magia negra.
      É, assim como nem todo leopardo transpõe os limites do predador e acolhe o filhote da caça que acabara de matar, nem todo ser humano fica dentro dos limites da humanidade. Alguns transpõem esses lindes e entram no perigoso território – não digo da animalidade, porque estaria sendo incoerente com o que acabei de mostrar aos leitores – mas da loucura ou da maldade. Mas não. Fiquemos com a maldade e esqueçamos a loucura. A maldade pura e simples. O mal pelo mal. E, nesse território instalados, são capazes de agir contra quem deles se aproxima. Passam a ser predadores, à espreita de uma caça desprevenida. Não por necessidade, mas por maldade. Maldade pura e simples. É, porque, se vocês ainda não acreditam que o mal existe – nele e por ele mesmo – estão perdendo tempo. Passa da hora de acreditar.





Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água



(Vicência Jaguaribe)




          Eram 10 horas de uma manhã diluviana e eu estava ao telefone falando com uma pessoa do Paraná, para quem eu deveria enviar uma encomenda pelos Correios. Desculpava-me por não poder enviá-la naquele dia. Estávamos sob um dilúvio. A pessoa do outro lado da linha soltou uma gargalhada e perguntou: Aí no Ceará? O jeito foi rir também, porque minha interlocutora tinha toda a razão em surpreender-se. Um dilúvio no Ceará, em pleno 31 de maio!? Era inacreditável!
         Mas foi o que aconteceu, e o leitor aí não me deixa mentir. Foi uma chuva que caiu de surpresa. Começou pela madrugada – mas só em alguns bairros – e continuou por toda a manhã, ora mais forte, ora mais fraca. E aconteceu o que sempre acontece – aqui, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Piauí, em Santa Catarina e em mais outros lugares deste Brasil imenso e tão despreparado para enfrentar as peças que a natureza nos prega, principalmente quando ela resolve se manifestar pela força da água. E foram rios e lagoas transbordando e invadindo as casas circunvizinhas, cujos proprietários perderam tudo que amealharam ao longo da vida; e ruas alagadas; e carros submersos; e asfalto destruído; e engarrafamentos quilométricos; e desmoronamentos, e muito mais que se possa imaginar. É, no Ceará tem disso, sim, também.
          Lá pelas dez e meia, minha empregada recebeu um telefonema da irmã: sua casa, a de sua mãe e a de todos os vizinhos haviam sido invadidas pelas águas de um rio que passa nas imediações. A água subiu em torno de um metro, e nada se podia fazer. Eles perderam tudo: geladeira, fogão, cama, guarda-roupa. Hoje, ela chegou para trabalhar já passando das onze horas. E, sem nenhum desespero, falou-me da situação. Estava conformada. Perdera tudo, meu Deus! e estava conformada.
          Não sei de onde vem essa conformação que se manifesta de maneira mais extrema nas pessoas mais simples. Conformação ou acomodação? E surgem os velhos e conhecidos refrões: Foi a vontade de Deus! Pior poderia ter sido! Ainda bem que está todo mundo vivo! Vão-se os anéis e fiquem os dedos. E Deus acaba assumindo a responsabilidade pela irresponsabilidade dos homens.
          Nós, os mais esclarecidos (seremos?), sabemos que, quando um canal transborda; uma cratera se abre no meio do asfalto, tragando um ou dois carros; barragens desmoronam; casas desabam ao peso da chuva, sabemos que os responsáveis são os homens. Sabemos que essas tragédias – grandes ou pequenas – são consequências da falta de planejamento; do pouco investimento na infraestrutura; da ocupação irresponsável do solo, enfim, consequências da má administração de governantes corruptos e destituídos de sensibilidade. Vamos deixar Deus fora dessas.
          Mas o vezo de jogar sobre os costados da divindade a responsabilidade de tudo de ruim que acontece, o que, de certa forma, livra a cara dos homens, é ancestral. E contra ele nada se pode fazer, a não ser que se eduque o povo, para que ele mesmo tenha a capacidade de assumir sua própria responsabilidade e apontar a dos outros nas ocasiões de tragédia. Mas, principalmente, para que ele assuma uma atitude preventiva, exigindo a solução dos problemas urbanos. A fim de que ele tenha o discernimento para saber até onde vai a ação da natureza e onde começa a responsabilidade dos homens. Um vulcão entrar em erupção é culpa da natureza, mas a morte de centenas de pessoas que viviam nas fraldas do vulcão já é responsabilidade humana.
          Deus acaba sendo o responsável indireto, aqui no Ceará, por exemplo, pela tragédia da seca e pelo descalabro das enchentes. Basta que analisemos os versos de Súplica Cearense:

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado,
Que de joelhos rezou um bocado,
Pedindo pra chuva cair sem parar.

Oh! Deus, será que o Senhor se zangou
E só por isso o sol se arretirou,
Fazendo cair toda chuva que há.

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho,
Pedi pra chover, mas chover de mansinho,
Pra ver se nascia uma planta no chão.

Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração.

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar.

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno,
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno,
Que sempre queimou o meu Ceará.

           Esses belos e comoventes versos revelam de maneira exemplar a relação entre o homem, a natureza e a divindade, na perspectiva do povo do Nordeste brasileiro. O homem é presa da natureza e da divindade; e a natureza, por sua vez, é o instrumento de Deus, para premiar ou castigar o homem. Sendo escravo da divindade – que, para o povo, ainda é aquele Deus vingativo do Judaísmo primitivo, e não o Deus de amor e compaixão do Cristianismo –, o homem precisa fazer tudo para agradar-lhe, precisa andar direito, para não despertar a sua fúria. Uma fúria que se manifestou no dilúvio e na destruição de Sodoma e Gomorra, por exemplo.
          Na canção popular, a mera súplica do homem para mudar o que já estava determinado por Deus pode gerar a ira divina. E isso fica muito claro nos primeiros versos: como o nordestino rezou pedindo para o sol desaparecer e vir a chuva em seu lugar, Deus manifestou seu furor, fazendo cair toda a chuva que há.
Diante da sanha divina, o homem resolve assumir a culpa. Deus, aquele que é, o princípio e o fim, não pode ser culpado de nada. O mal que acontece no mundo acontece por culpa do homem. Deus lança seu raio vingador para punir uma má ação do homem: um pedido inoportuno, uma súplica errada, uma blasfêmia, uma exigência audaciosa, ou qualquer outra coisa que possa ser ofensiva aos olhos da Divindade. E assim, assumindo sua parcela de culpa nos males que o afligem, o homem tende a conformar-se. Se a culpa é dele, não há por que revoltar-se.
          Bem, para os marxistas, a religião, sendo o ópio do povo, é culpada pelo conformismo do homem. Para os crentes, a religião é um ponto de apoio, é um freio para os destemperos humanos. De qualquer maneira, enquanto o homem não se educar e aprender a enxergar a verdadeira dimensão do mundo, de Deus e dele mesmo, a religião é uma muleta que o impede de cair no despenhadeiro do desespero.
           A enchente, a seca, a erupção de um vulcão, o abalo sísmico, o tornado, a tempestade e outras manifestações destruidoras da natureza, em princípio, não existem para castigar o homem. Nem Deus, se existir, deve perder seu precioso tempo com essas coisitas de interesse humano. O que faz a natureza parecer instrumento da vingança divina é a ação irresponsável do homem e seu próprio sentimento de culpa quando percebe que suas relações com seus semelhantes e com a natureza não são nem um pouco louváveis.





As virtudes e as desvirtudes do mundo virtual


(Vicência Jaguaribe)


          Os tempos modernos, com sua tecnologia avançada, seus artefatos inimagináveis até bem pouco tempo, forçam-nos a fazer reflexões que para algumas pessoas podem não ter importância ou soar como perda de tempo, algo como discutir o sexo dos anjos. Mas que, para quem trabalha com a palavra, com o texto, são, no mínimo, curiosas. Vejamos alguns desses casos, inseridos em contextos reais.
           Há algum tempo, assisti a uma defesa de dissertação que tinha como linha teórica a Crítica Genética, que eu, por brincadeira, chamo de bisbilhotice. A Crítica Genética é uma vertente da crítica literária que vê o texto não como produto finalizado, mas como um fazer, uma atividade, um movimento. Interessa-se pelo processo de produção, investigando o pré-texto e as metamorfoses por que passa a obra literária antes de concluída. Debruça-se, portanto, sobre os rascunhos, os manuscritos ou datiloscritos, que formam a pré-história do texto. Pois bem, quando se abriu espaço para perguntas do público, eu, mais por ironia do que por qualquer outra coisa, perguntei ao mestrando como a Crítica Genética iria virar-se na era do computador, quando os rascunhos deixam de existir. O colega ficou meio atrapalhado, mas disse que existem programas de computador que guardam arquivos, mesmo quando são deletados pelo autor.
           Bem, admitindo-se que existam esses programas, convenhamos que nunca vai ser a mesma coisa, uma vez que à proporção que se vai digitando vai-se deletando o que não parece adequado, destruindo-se as marcas das várias tentativas.
          Outro dia, conversando com uma amiga também professora, lancei-lhe uma questão: como se chama agora a versão final (ou quase) de uma obra que se manda para publicação, se essa obra foi digitada, isto é, os originais digitados? Antes do computador, chamava-se manuscrito. E agora? Inventar-se-á um digitaloscrito, ou algo semelhante? Ou simplesmente haverá a ampliação do sentido de manuscrito, como houve, por exemplo, com imprensa? Tratar-se-ia, segundo Pierre Guirraud, do processo de desmotivação do signo, que permite às palavras o alargamento de seu significado. No fundo, dá-se, nesses casos, um processo de economia linguística, uma vez que uma única palavra passa a nomear dois fenômenos diferentes.
          Outro questionamento que se tem feito refere-se à perenidade do livro impresso, em uma época que nos oferece bibliotecas inteiras de livros virtuais. Semana passada, conversei com um professor que abraçou a tarefa de equipar de livros as escolas oficiais do estado do Ceará. Ele me disse que o estado está comprando livros virtuais em vez dos tradicionais livros impressos. Em termos de custo-benefício, explicou-me ele, há uma grande vantagem. Vejamos: um livro virtual – um e-book, como está sendo chamado – custa três ou quatro vezes um livro impresso. Acontece que ele atende a incontáveis leitores, ao mesmo tempo, o que redunda em uma economia inimaginável.
           Sabemos que muitos estudiosos, como Umberto Eco, não acreditam no desaparecimento do livro impresso e em sua substituição pelo livro virtual. Eco fala na duração: um cd dura cinco anos, enquanto um livro impresso dura cinco séculos. Desfia ele as inconveniências dos eletrônicos: que fazer, quando falta energia? quando um equipamento cai e se quebra? quando um suporte é substituído por um mais moderno? Mas fala, também, no conforto e na conveniência dos livros impressos, vantagens que os virtuais não nos oferecem:
Mesmo tendo gravado em meu computador todo o "Quixote", não o poderia ler à luz de uma vela, em uma rede, em um barco, na banheira, enquanto um livro me permite fazê-lo nas piores condições. E se o computador ou o e-book caírem do quinto andar estarei matematicamente seguro de que perdi tudo, enquanto se cair um livro no máximo se desencadernará completamente.
Os suportes modernos parecem criados mais para a difusão da informação do que para sua conservação. O livro, por sua vez, foi o principal instrumento da difusão (pense no papel que desempenhou a Bíblia impressa na Reforma protestante), mas ao mesmo tempo também da conservação.

          O artigo de Umberto Eco do qual tiramos o trecho transcrito acima – Sobre a efemeridade das mídias – é de abril de 2009. Não sei se na época já se haviam popularizado os aparelhos portáteis próprios para a leitura de livros digitais. São do tamanho de um celular, cabem no bolso, mas sua tela, quando abertos, estende-se até cinco polegadas. Um aparelho como esse invalida algumas das objeções feitas por Eco.
          É por ter em vista essas soluções tecnológicas que abordo o assunto com outro tipo de argumentação. Há algo, a meu ver, muito mais importante e muito mais forte do que as razões de Umberto Eco a nos dizer que o livro impresso dificilmente será substituído pelo livro eletrônico: o fetiche que esse objeto de 500 anos tem. Esse fetiche advém de uma tradição de séculos, de uma longa história, que empresta ao livro impresso um caráter quase sagrado, o que faz com que seu autor e seu leitor se sintam herdeiros de um artefato mágico.
          Nenhum escritor ou aprendiz de escritor, como eu, conforma-se em ter somente leitores virtuais. Sabemos que um texto publicado em um site, em um blog, em um orkut, ou algo que os valha, é infinitamente mais lido do que um texto publicado em um livro impresso; mas não nos conformamos – queremos ter o objeto sagrado nas mãos, aspirar seu cheiro característico, sentir sua aspereza. Achamo-nos menores, quando nossa obra fica limitada ao mundo virtual.
          Publico, senhores leitores, textos no site Câmara Brasileira dos Jovens Escritores, que todos os meses lança coletâneas de textos escolhidos – na versão impressa e na versão virtual. Os autores mais lidos são assinalados com uma estrela: uma estrela prateada indica que esse autor já atingiu mais de 5.000 leitores; uma estrela dourada, que o autor alcançou mais de 50.000 leitores. Cinquenta mil leitores! É uma quantidade estonteante para publicações impressas, no Brasil, mesmo acumuladas por anos. Mas não nos conformamos com esse número miraculoso. Queremos o livro impresso. Podemos ter um blog particular, enviar trabalhos para variados sites... não nos satisfazemos, queremos ver nosso nome impresso em papel.
          Raimundo Carrero, em texto publicado no blog “Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes”, levanta uma outra questão, que nos soa meio hilariante: na hora de pleitear uma vaga de imortal na Academia Brasileira de Letras, por exemplo, que exige do pretendente à imortalidade pelo menos um livro publicado, a publicação eletrônica vale, ou não? Mesmo com ISBN e tudo?

          Editado, o livro eletrônico abre uma dificuldade: para entrar na Academia Brasileira é preciso que o escritor tenha publicado, pelo menos, um livro. E agora? Livro eletrônico é livro mesmo ou apenas um produto técnico, sem possibilidade de julgamento?

          Como se vê, a vida de quem trabalha com a palavra não é tão simples assim. Há uma relação autor-obra-leitor, indispensável no mundo que se constrói com palavras. Mas agora ousam insinuar que nem todo leitor é leitor propriamente. Quer dizer que um leitor que lê via computador é menos importante do que um que lê via papel impresso? Que, em algumas situações, ele não conta? Como se sabe, sem leitor não há obra. Então, se meus leitores forem virtuais, eu, que escrevo, e tenho certeza de que escrevo (independentemente da qualidade daquilo que escrevo); eu, que não sou delirante, já tive nas mãos textos escritos por mim, já senti o cheiro da tinta fresca, já fui atacada pela LER, eu não mais tenho obras? É, nem tudo são facilidades no mundo virtual, mas que vale a pena viver sob a sua égide vale. Não restam dúvidas.








Crônica, conto e outros gêneros... uma relação para lá de promíscua



(Vicência Jaguaribe)



Crônica sempre será tudo aquilo que
seu autor batizar com o nome de crônica.
(Calcado em Mário de Andrade.)




Cheguei à casa de uma amiga e o filho mais novo dela – meu afilhado – abriu-me a porta com a seguinte informação, seguida de uma pergunta:
          - Tia, ontem entrou uma barata pela janela – eles moram no terceiro andar de um prédio de apartamento – . Você não vai fazer uma crônica, não?
          De imediato entendi a ironia do rapazinho. Por mais de uma vez me apropriei dos pequenos episódios do cotidiano de sua família e transformei-os em crônica. Um deles foi a invasão do apartamento por um vaga-lume. Não, não fiz uma crônica sobre a visita da barata. Não gosto de baratas, aliás, elegi-as inimigas figadais. Mas isso não impede que qualquer dia desses, deixando a aversão pra lá, eu me ponha a falar desse “ortóptero onívoro, de corpo achatado e oval”, como o define mestre Aurélio.
          Mas a intervenção do meu afilhado Artur me levou a querer falar um pouco sobre crônica e as confusões instauradas pelas tentativas de compreensão daquilo que, na realidade, faz com que uma crônica seja uma crônica e não outra coisa. Muito já se falou da confusão existente entre conto e crônica e dos limites tênues e, às vezes, até inexistentes entre os dois. É claro que nem todo conto se confunde com crônica. Há contos que são indiscutivelmente contos, e crônicas que são indiscutivelmente crônicas. Mas há outros que, pelo amor de Deus! Por isso disse Mário de Andrade, não sei exatamente onde nem quando (cito de terceiros), que conto sempre será tudo aquilo que seu autor batizar com o nome de conto. Estaria Mário de Andrade brincando, ironizando a preocupação das pessoas em rotular todas as coisas? Ou falaria sério?
          O que sei, no entanto, é que, se Mário de Andrade disse isso sobre conto, poderíamos nós dizer algo semelhante sobre a crônica: sempre será tudo aquilo que seu autor batizar com o nome de crônica. Para comprovar o acerto dessa afirmação, contamos o seguinte episódio: Moacyr Scliar publicou recentemente uma coletânea de contos intitulada Histórias que os jornais não contam. Pois não é que, na ficha catalográfica, aparecem como crônicas as pequenas narrativas, que são indiscutivelmente contos! Todas as histórias partem de uma notícia de jornal e, na mão do escritor, transformam-se em arte. O próprio Moacyr Scliar redige a introdução da obra, mostrando a diferença entre o real e o ficcional:

          Descobri que, atrás de muitas notícias, ou nas entrelinhas destas, há uma história esperando para ser contada, história essa que pode ser extremamente reveladora da condição humana. O jornal funciona, neste sentido, como a porta de entrada para uma outra realidade – virtual, por assim dizer. Neste momento o texto jornalístico, objetivo e preciso, dá lugar à literatura ficcional. À mentira, dirá o leitor. Bem, não é propriamente mentira; são histórias que esqueceram de acontecer. O que o escritor faz é recuperá-las antes que se percam na imensa geleia geral composta pelos nossos sonhos, nossas fantasias, nossas ilusões.

          Como se vê, não parece passar pela cabeça do autor que, partindo das notícias jornalísticas, irá produzir crônicas. Ao contrário, parece concentrar-se no ingrediente central do conto, a história, “que pode ser extremamente reveladora da condição humana”. Aí fica a dúvida: será que a própria editora é a responsável pelo rótulo de crônica, e o autor não tem nada a ver com essa história? Não sei.
          Antes que alguém contra-argumente, digo saber que a narrativa pode aparecer como um ingrediente da crônica, mas não é a preocupação primeira do cronista. A narrativa, quando aparece, parece o pretexto para o objetivo maior da crônica – o comentário. Bem, é isso que acho. E, como ninguém sabe mesmo, com absoluta certeza, o que é uma crônica, sustento esse ponto de vista até que alguém mais sabido do que eu apareça com um argumento mais convincente.
           Mas vamos um pouco à história da crônica, para pescar subsídios que nos ajudem a entendê-la nos tempos modernos.
           O vocábulo crônica vem do grego krónos, que quer dizer tempo. Segundo Massaud Moisés, no início da era cristã, era a designação que se dava a uma relação de acontecimentos, dispostos na sequência linear do tempo. Esses relatos, que não aprofundavam as causas dos fatos nem lhes davam qualquer interpretação, foram tidos como anais ou incluídos na História. Após o século XII, na Espanha e em Portugal, distinguiu-se a crônica da crônica breve ou cronicão. A primeira ficava no campo da História e apresentava abundância de pormenores dos fatos, acrescentando-lhes uma interpretação. A segunda constituía “simples e impessoais notações de efemérides”, nas palavras de Massaud Moisés.
           Foi o segundo modelo que chegou ao século XIX ostentando “personalidade literária”. Com essa característica, a crônica foi inaugurada pelo francês Jean Louis Geoffroy, no Journal des Débats, em 1880. No Brasil, ela passou a ser praticada depois de 1836, com o nome de “folhetim”. Somente no final do século é que a palavra crônica aparece, para nomear esse tipo de produção, que, entre nós, ganhou prestígio literário: “De lá para cá, o prestígio da crônica não tem deixado de crescer, a ponto de haver os que a identificam com a própria Literatura Brasileira ou a consideram nossa exclusividade”, informa o mestre Moisés.
          Considero que a grande dificuldade de se definir o gênero crônica está exatamente na grande diversidade que ele assume. Massaud Moisés classifica-a como uma “expressão literária híbrida, ou múltipla”, assumindo a forma de alegoria, necrológio, entrevista, invectiva, apelo, resenha, confissão, monólogo, diálogo com personagens reais e/ou imaginárias, etc. Importante considerar o que diz Moisés, naturalmente percebendo o grande problema que a teoria e a crítica literária não conseguem solucionar – a relação promíscua entre a crônica e o conto:

          A análise dessas várias facetas permite inferir que a crônica constitui o lugar geográfico entre a poesia (lírica) e o conto: implicando sempre a visão pessoal, subjetiva, ante um fato qualquer do cotidiano, a crônica estimula a veia poética do prosador; ou dá margem a que este revele seus dotes de contador de histórias. No primeiro caso, o resultado pode ser um autêntico poema em prosa; no segundo, um conto. Quando não se define completamente por um dos extremos, a crônica oscila indecisa numa das numerosas expressões intermediárias.

           Não sei se todo esse lero clareia as idéias do leitor ou as confunde mais ainda. Para mim, no entanto, é a linguagem, em si, o tom que se imprime ao texto, que vai caracterizar a crônica. Mas, ainda assim, ficam muitas dúvidas. Há, ainda, a considerar a aproximação da crônica com o artigo de opinião e com o ensaio, por exemplo; e até com o editorial. Se você fica só no campo da teoria, é fácil distinguir. Mas vá para o texto vivo, pulsando a seus olhos. Duvido que a coisa seja fácil.
         O que facilitaria mesmo seria que deixássemos essa mania de querer rotular tudo o que nossos olhos distinguem. Isso em literatura, e em arte de maneira geral, é terrível. Devíamos dar mais valor à qualidade do texto, à sua capacidade de prender o leitor e influir em sua vida. Porque, ao fim e ao termo, a crônica, ou seja lá o que determinado escrito seja, só tem valor quando consegue transpor os limites do circunstancial e atingir o perene, por meio da recriação da linguagem. Se isso não acontecer, a crônica, em particular, deixará sempre a sensação de que estamos diante de um gênero menor do que a poesia, o conto, a novela o romance e o teatro.
         Para não ficar só na teoria, termino esta crônica (será crônica mesmo?) com um texto de minha lavra, que acho ser uma crônica. Vamos ver, leitor, qual a sua opinião.



            O gato Gabriel



           Ele aparecera na garagem do prédio. Vindo não se sabe de onde. Trazido não se sabe por quem. Era um bebê ainda, de ralos pelos brancos enfeitados com pequenas manchas escuras. Os olhos, de um amarelo-brilhante, olhavam para as pessoas como a pedir-lhes que o aceitassem.
          Alguém fez o primeiro comentário, de teor utilitarista: Os ratos agora vão desaparecer daqui. Não se sabe se ele ouviu, muito menos se um gato-bebê ou um bebê-gato espanta rato. Mas o certo é que o Gabriel – assim alguém o nomeou – despertou a simpatia de todo mundo... ou de quase todo mundo.
         Mas foi a Cris, a filha adolescente da síndica, quem o adotou oficiosamente, e era uma boa mãe. Dava-lhe carinho e cuidava para que não fosse maltratado. Descia com comida e água, que ele ficou morando mesmo na liberdade ampla da garagem. Um regime de convivência que devia deixar feliz o Gabriel, que, como bom bichano não se prestava a confinamento e a horários pré-estabelecidos. Gato gosta mesmo é de sair na hora em que bem quer, para dar seus passeios em cima dos telhados e fazer suas conquistas, sem horário para chegar em casa. Pega a liberdade na pata e a expõe como um troféu.
         O Gabriel cresceu e mostrou serviço – não se via mais rato pelo subsolo do prédio. E quase sempre quando se chegava, lá estava ele dando as boas vindas; e ficava fazendo-nos companhia até o elevador chegar. Nunca se ouviu falar, por outro lado, que ele se intrometesse nos espaços que não lhe cabiam. Por exemplo, nunca entrou no elevador nem subiu as escadas – pelo menos nunca ouvi comentários a esse respeito – para bisbilhotar na porta dos apartamentos.
         Era um gato educado e gentil. Um dia até posou para uma sessão de fotografias, sem nenhuma objeção ou exigência de pagamento. E saíram boas fotos.
        Mas o Gabriel era mesmo um gato, e a natureza falou mais alto. Ele deve ter achado que podia andar por cima dos carros como andava por cima dos telhados e dos muros. Talvez até tenha pensado que aquelas superfícies eram um tipo de telhado especial, mais sofisticado. E tibum!!! Lá estava o Gabriel querendo achar uma namorada em cima dos carros.
         Os proprietários dos veículos não gostaram da novidade e solicitaram providências da síndica – àquelas alturas, sentindo-se avó do Gabriel. E o bichano teve que se mudar, indo miar em outra freguesia. Que saudade, Gabriel!

         Bem, se “O gato Gabriel” for mesmo uma crônica, aí teremos algo inusitado (será mesmo inusitado?) – uma crônica dentro de outra crônica. Algo como sanduíche de pão com pão.




A uma amiga


(Vicência Jaguaribe)





           Fortaleza, 16 de maio de 2010.


          Prezada amiga,



         Escrevo-te do meu gabinete, ao sabor da brisa que entra pela janela e do vento liberado pelo ventilador. Ao som das bombas que festejam um lance bem sucedido de um jogador de futebol, em um jogo que não sei qual é. De uma ou outra buzina de carro perdida na movimentada avenida, que hoje tem um pouco de paz. É uma tarde de domingo, quase noite. Aquele momento extremo da semana, quando os corpos se recolhem a casa, em busca de repouso, porque sabem que, logo mais, será mais uma segunda-feira. É mais uma vez uma tarde-noite de domingo, e eu não sei o que fazer com ela.
        O que há com as tardes-noites de domingo? Ou melhor: o que acontece comigo nas tardes-noites de domingo? O que fazer das tardes-noites de domingo? É aquele momento que fica entre o querer e o não-querer. Entre o fazer e o não-fazer. Entre o desejo e o desinteresse. Entre as lembranças e o esquecimento. É o momento em que se cai, literalmente, no limbo. É o instante da indefinição, da incerteza, da indecisão.
Daqui a pouco, quando já for noite fechada, ouvir-se-á no televisor do vizinho a voz do Faustão e o som do Fantástico, que desatam o frágil nó da esperança de que algo aconteça para salvar o fim da noite. Que fazer, meu Deus, com a sensação de desgosto e de enjoo quase físico provocada pelas pegadinhas, pela dança dos famosos, pelos quadros do Show da Vida, que não se enquadram na minha vida das tardes-noites de domingo?
        Amiga, as tardes-noites de domingo são o coroamento sem pompa e circunstância das expectativas dos sete dias da semana. Durante os sete dias, as decepções, os desgostos, as dificuldades e as dores foram empurradas para as vinte e quatro horas seguintes, depois para as seguintes e para as seguintes, e mais uma vez para as seguintes, até que chegou o momento em que não se tem mais para onde empurrar. Não aconteceu. Não se fez. Não se encontrou. Não se compensou. E o outro dia é a segunda-feira, quando começará tudo de novo, para chegar tudo ao mesmo ponto.
         Nada que se fizer nas tardes-noites de domingo preencherá o vazio que se instala. Já se tentou ver um filme? Arrumar uma gaveta (sempre há uma gaveta para arrumar – ouvi isso recentemente na novela das sete)? Preparar a aula da segunda de manhã? Ouvir Chico Buarque ou Marisa Monte? Pior, porque se correrá o risco de se ver espalhada pela casa – feito as contas de um colar que se soltaram e que não mais se consegue juntar e guardar dentro de uma caixa fechada – a dor sentida e ressentida daqueles versos belos e terríveis. É só escolher: estes

          Do lado de lá tanta aventura
          E eu a espreitar na noite escura
          A dedilhar essa modinha
          A felicidade
         Morava tão vizinha
         Que, de tolo
         Até pensei que fosse minha

          ou estes

       Se ela me deixou a dor,
       É minha só, não é de mais ninguém
       Aos outros eu devolvo a dó
       Eu tenho a minha dor
       Se ela preferiu ficar sozinha,
       Ou já tem um outro bem
       Se ela me deixou,
      A dor é minha,
      A dor é de quem tem...


       Bem, felizmente, a tarde-noite de domingo não dura para sempre, minha amiga, não é eterna. Ela tem um limite, graças a Deus! E isto é um consolo, até que a gente se lembra de que de hoje a sete dias haverá uma outra tarde-noite de domingo.

       Fica com Deus nesta tarde-noite de domingo e em todas as outras que virão.


      Da amiga...





Uma homenagem às especialíssimas mães dos filhos dos outros


(Vicência Jaguaribe)


Esta crônica é baseada em uma figura real:
a mãe de dezenas de filhos dos outros, que,
com oitenta e sete anos, ainda distribui amor,
carinho e cuidados – Gercila Rodrigues Vieira.


        Ela costuma dizer que acredita em milagres, porque sua vida é uma sucessão de pequenos milagres. Um deles, todos sabem, menos ela própria, foi a coragem de renunciar à vida pessoal para dedicar-se às crianças que ninguém queria.
        Certo dia, voltava do colégio onde ensinava, quando foi surpreendida por um vagido fraco, que parecia vir de um camburão que a prefeitura ali colocara para recolher o lixo. Aproximou-se. Por baixo de uma fina camada de folhas secas, viu despontarem dois pequeninos pés que se mexiam. Com as mãos trêmulas, arredou as folhas e descobriu um recém-nascido, ainda com o cordão umbilical, enrolado em uma toalha velha e suja. Sua natureza prática não titubeou. Pôs o bebê no braço, tomou um táxi e levou-o à maternidade mais próxima. A criança foi atendida e examinada. Imediatamente o hospital comunicou o fato à Polícia. Iniciaram-se as investigações, e a professora pediu a guarda temporária da criança. Enquanto ia para casa com aquele bebê desconhecido, pensou no milagre de que fora instrumento. O maior de todos – o milagre da vida. Aquela criança estava fadada à morte prematura. Aliás, a morte já lançara, em forma de folhas secas, sua sombra sobre ela. Fora ela, a professora, que a arredara.
        Aquela havia sido a primeira de muitas crianças de todas as idades que a professora acolheria em sua casa. Morava com a mãe em uma casa pequena, situada no centro de um terreno relativamente grande. Com o tempo, ela foi ampliando a casa para receber aqueles pequeninos seres que a irresponsabilidade dos adultos por pouco não lançara no infortúnio.
        Mas a professora não dirigia uma instituição de amparo à criança abandonada. Não, engana-se quem pensa assim. Ela dirigia um lar de muitos filhos. Ela era a mãe daquelas crianças, que a tinham à cabeceira quando adoeciam; que pediam seu colo quando uma queda as fazia chorar; que ouviam sua voz cantando uma cantiga de ninar, no grande quarto onde dormiam os menores; que contavam com sua compreensão quando faziam uma travessura; mas que também reconheciam, no tom de sua voz e no seu olhar, que haviam ultrapassado as medidas e que, por isso, seriam castigadas. Castigo de mãe, cujo coração sangrava por cada minuto em que uma de suas crianças cumpria um castigo.
        Nunca se viu tanta disponibilidade e tanta disposição de alma para amar os filhos dos outros. Amar os próprios filhos é algo que soa natural, porque existe aquilo que o povo chama a voz do sangue, se é que o sangue tem voz. Mas amar os filhos dos outros – outros que muitas vezes são desconhecidos – é algo extraordinário. Não se trata simplesmente de adotar, de dar condições de vida, de cuidar. Não, trata-se de amar, na perspectiva maior – dar carinho, compreensão, palavra de estímulo, mas também palavras de repreensão, quando necessário.
        Muitos milagres aconteceram na vida da professora. Sua casa sobreviveu com a ajuda de estranhos que ficavam sabendo por terceiros do trabalho a que se dedicava. Muitos dias, conta ela, ia dormir com a despensa vazia e perguntava-se: Como vou alimentar minhas crianças amanhã? Quando abria a porta, pela manhã, eis que se realizava o milagre: uma pessoa generosa, um anônimo de boa vontade, deixara suprimentos para alguns dias.
        E as primeiras crianças cresceram, formaram-se, constituíram família. E seus lugares foram sendo ocupados por outras crianças, que agora poderiam contar com a ajuda desses irmãos mais velhos – era um médico, que tratava deles nas doenças; era um dentista, que lhes garantia um bonito sorriso branco; um professor, que lhes dava aula quando necessário; um eletricista, que acorria ao primeiro sinal de problema na instalação. Todos, enfim, agradeciam àquela mãe que o destino lhes dera, ajudando os irmãos que todo dia aumentavam aquela família especialíssima. Era, realmente, como diz aquela mãe, agora já avançada nos anos, um milagre a cada dia.
        Como não acreditar em milagre, se sua vida toda se constituíra de milagres? Ela, no entanto, não atina para o maior de todos os milagres – sua capacidade de amar filhos que não têm seu sangue, os filhos dos outros.
















Falar com as plantas


(Vicência Jaguaribe)





          A vizinha, sempre que viaja, deixa sua plantinha de estimação – filha única – em meu apartamento, para evitar morte prematura causada pela sede. Tem dado certo, mas, desta vez, estou a temer um desfecho infeliz. Não sei por que razão, o pequeno vegetal, que chegou em meu apartamento tão viçoso e tão alegre, de repente ficou triste e desalentado. As pequenas folhas estão caindo, e as que restam estão murchas, pendendo de galhos finos e sem nenhum vigor.
          Falta de cuidados não é, pois a Noêmia, minha secretária, cuida dela como cuida das nossas – que tenho algumas espalhadas no pequeno recinto que forma a sacada de meus dois quartos. Que estará acontecendo, então? Será que vegetais têm sensibilidade suficiente para se melindrar com a falta das pessoas, para sofrer com a mudança de ambiente? Já ouvi de muitas bocas – não sei se confiáveis – ser necessário que conversemos com as plantas para que elas fiquem viçosas. Um dia, queixando-me de que minhas plantinhas não iam pra frente, morriam com facilidade, a empregada de uma prima minha saiu-se com esta pergunta:
          - A senhora conversa com elas?
          - Ah! Paula, respondi. Eu não gosto de conversar nem com gente, imagine com planta.
          - Pois elas precisam de conversa.
          Mas a Paula é o que minha avó chamaria de cavilosa. Gosta de romancear os fatos sem graça do cotidiano. E aí eu fico sem saber se essa história de conversar com as plantas tem fundamento. Se tiver, e a plantinha de minha vizinha estiver acostumada a bater papo, encontra-se em maus lençóis hospedada em meu apartamento, porque, se eu converso pouco, a Noêmia é a própria personagem muda.
          Bem, mas será que é por isso que minhas plantinhas estão bem e, de repente, como por magia ou mau olhado, entristecem, murcham e morrem? Epa! Agora é que estou me lembrando que existe – ou dizem que existe – o tal do mau olhado. Minha mãe e minha avó contavam histórias variadas envolvendo esse poder paranormal de muita gente. Elas diziam que pessoas conhecidas e até amigas delas – e declinavam os nomes –, sem querer, faziam crianças novas adoecerem e plantas murcharem. Recordo que, muitas vezes, minha mãe mandava esconder um jarro de planta para evitar o olhar de alguém que ia fazer-lhe uma visita. Mas no meu apartamento não anda muita gente, ou melhor, não entra quase ninguém de fora. Quem poderia, então, ter obrado esse milagre às avessas.
          Eu sempre digo que não tenho mão boa para planta, seja lá o que signifique isso, na verdade. Mas o que quero dizer é que planta que eu mudo, que eu rego, da qual eu cuido, enfim, não ganha viço. Será que, como há olhos que matam (parece nome de filme americano, não parece?), há mãos que matam? Não, não a mão que porta um revólver ou uma faca, ou que estrangula, essas coisas que estão dentro da normalidade (?). Essas nós sabemos que matam, esfolam, esquartejam. Digo matam, sem armas, brancas ou de cor. Matam porque possuem poder paranormal. Isto é, mãos que tenham força negativa? Porque mãos com força positiva, dizem que há. Existe, inclusive, a expressão impor as mãos, com um sentido bem específico. Em Mateus e em Marcos, nos Atos dos Apóstolos, por exemplo, aparece a imposição das mãos para abençoar e para curar. Mas, segundo um texto que li a respeito do assunto, no Novo Testamento a ação de impor as mãos era meramente simbólica: “As mãos não transferiam algo invisível, como uma corrente magnética, mas o gesto de impor as mãos era uma expressão visível do desejo por parte de quem o fazia de que Deus concedesse determinada coisa à pessoa sobre quem impunha as mãos. Era um gesto simbólico, apenas (www.fatos-biblicos.info)”.
          Bem, mas vejam onde fui parar! Comecei na minha sacada, com a plantinha da minha vizinha, e acabei na Bíblia. Esse movimento de libertação do texto em relação a seu autor sempre me fascina. Mas o que sei e posso adiantar, no término desta crônica, é que, quando minha ilustre amiga e vizinha de apartamento chegar, poderá ter de chorar por sua bela plantinha, que talvez tenha passado desta para melhor. Queira Deus ela não ache que foi falta de cuidados. De qualquer maneira – mas eu me lembrei disto agora, juro por Deus – esta crônica poderá ser um instrumento de defesa, caso ela queira me processar por maus tratos a um ser vivo.







Cupido, por ter asas, não é propriamente um anjo


(Vicência Jaguaribe)

 



          Quem visitou meu blog – palavraengenhosa – nos últimos dias, deve ter visto, logo na página de entrada, um convite a participar de uma enquete. Explico: compus dois poemas sobre o amor – “Poema-de-amor” e “As rimas do amor” –, em que focalizo esse sentimento de perspectivas diferentes: o primeiro expressa uma visão até certo ponto otimista do amor, embora eivada de uma certa ironia; o segundo revela uma visão altamente pessimista, de modo que o eu lírico nem ao menos consegue concretizar um poema sobre esse tema. Encerro o poema com um verso que intertextualiza com o título da obra do escritor romeno C. Virgil Gheorghiu, que também foi levada ao cinema, “A 25ª hora”. O verso final do poema é O amor se realiza mesmo é na 25ª hora. Sendo a vigésima quinta hora a hora que não existe, pode-se depreender do verso que o amor também não existe, não se realiza. Para quem leu a obra, no entanto, há outras significações. A narrativa relata o sofrimento meio kafkiano do protagonista, o camponês romeno Johan Moritz, daí, poder-se deduzir que a hora do amor, sendo a 25ª hora, é a hora do sofrimento, ou que amar é sofrer. Ou, ainda, porque a 25ª hora é a hora em que tudo já está definido, em que nada se pode mudar – não importa o que se faça ou que se pergunte ou o que se responda -, o amor se reveste de certo determinismo. Daí as dores do amor serem inúteis, pois tudo já está pré-definido.
          Bem, quando propus a enquete no blog, queria colher material para uma crônica que falasse sobre o que as pessoas acham do amor. Meu objetivo não foi alcançado: primeiro, porque poucas pessoas se dispuseram a opinar – só dez o fizeram. Como as pessoas têm medo de comprometer-se! Segundo, algumas pessoas desviaram sua opinião do conteúdo do poema para a forma. Nesse caso, a culpa pode ter sido minha, que não expliquei o objetivo da enquete.
          Mas comentemos um pouco o resultado, sem, no entanto, podermos chegar a um juízo sério sobre o que queria realmente saber. Dos que comentaram os poemas, três disseram preferir o primeiro, “Poema-de-amor”; seis revelaram preferência pelo segundo – As rimas do amor” –, enquanto um negou-se a escolher. O certo, então, é que a maioria preferiu “As rimas do amor”, o poema de tendência pessimista. Resolvo transcrever esse poema abaixo, para que as pessoas que não o leram possam acompanhar os comentários:

As rimas do amor

Quis fazer um poema de amor.
Inútil tentativa, esforço vão.
As palavras escorregaram da página virtual
E, com a ironia habitual, olharam-me do chão.

Recolhi as palavras esparramadas.
Tentei fazer um poema de forma fixa.
Rimei, então, amor com flor.
Ouvi uma risadinha safada.
Riso de quem critica a ingenuidade
E a ignorância dos percalços da vida.

Então, rimei amor com dor.
A risadinha safada mudou de tom:
- Não dá para ser mais original?

Para falar de amor convém saber que o amor
– que nem sempre merece loas –
Rima não com palavras, mas com pessoas.
E, como todas as rimas, as do amor
Podem ser perfeitas ou imperfeitas.

Bom ter em mente – chocante embora –
Que as do amor são, em geral, imperfeitas.
E, para usá-las, paga-se juro de mora.
Raramente o amor, ipso facto,
Rimas perfeitas encontra.
O amor se realiza mesmo é na 25ª hora.


          Como o leitor pode perceber, o poema é recheado de expressões que indicam impossibilidade: Inútil tentativa, esforço vão; As palavras escorregaram da página virtual; as [rimas] do amor são, em geral, imperfeitas; Raramente o amor, ipso facto, Rimas perfeitas encontra; O amor se realiza mesmo é na 25ª hora. Da impossibilidade de falar do amor, infere-se a impossibilidade de amar, de conhecer o amor ou mesmo de existir o amor. Então, pode-se perguntar: Por que muitas pessoas não creem no amor? Não é que não queiram amar, não é que não procurem um amor. Será a desilusão amorosa que as leva a descrer desse sentimento que juntamente com o ódio move o mundo?
          Pode-se dizer que essa postura em relação ao amor é um dos frutos dos tempos modernos? Talvez. Mas eu ouso dizer que é principalmente fruto do que as pessoas estão a exigir, hoje, do amor ou da pessoa amada, o que não deixa de ser uma conseqüência da era atual. As exigências da vida moderna, a liberação da mulher, a liberdade conquistada em termos de relação amorosa, tudo isso fez do um e do outro da relação amorosa dois exigentes: exige-se, hoje, atenção total do outro; não se perdoa um deslize; acha-se, em decorrência da liberalidade que domina mitos setores da sociedade, facilidade em encontrar outro parceiro, o que leva o um ou o outro a trair, a abandonar, a desprezar aquele a quem um dia jurou amor eterno. E, como nas relações amorosas, um ama mais do que o outro, é este que sofre em consequência do desamor. E este que sofre vai cristalizando uma idéia negativa do amor, enquanto o outro vai banalizando esse sentimento. Resultado, por um motivo ou por outro, muitas pessoas acabam não confiando mais em uma relação que tenha por base um sentimento em que não mais crêem.
          Não sei o que os especialistas no assunto dizem a respeito. Não sei o que iriam dizer deste meu leriado sem futuro, como diria minha avó, sobre o sentimento do amor ou do desamor. É, porque não existe um sem o outro. Mas esta é uma tentativa – não científica, diga-se – de entender o que vai na alma dos outros e o que vai na minha alma, quando o assunto é este sentimento em nome do qual já se cometeram crimes, já se engendraram atos de nobreza e já se compuseram inúmeras obras de arte. Mas isso só foi possível porque o amor, como tudo neste mundo, tem dois lados: Cupido não é propriamente um anjo, ou é, ao mesmo tempo, um anjo e um arqueiro. É o que digo em um de meus poemas: Cupido por ter asas não é um anjo. / É antes um arqueiro / Com a flecha em riste / Pronto para desfechar o golpe. / Pronto para semear a dor. / Privem-no da flecha / E ele não mais será amor.




A tal frente fria


(Vicência Jaguaribe)




        - A frente fria, onde estará? Alguém pode dizer-me onde se meteu esta tal de frente fria que andava fazendo besteira lá pelo Sudeste?
        A tal frente fria, que chegaria por aqui e por aqui estacionaria algum tempo, chegou – se é que chegou – meio debilitada. Pudera! Exagerou lá pelo Sul e pelo Sudeste, esteve fazendo besteira, e agora vem dar vexame aqui no Ceará. Pelo que se viu na televisão, ainda conseguiu ser olhada com respeito em Recife, em Aracaju e em Maceió. Mas, aqui em Fortaleza, por pouco não foi vaiada em plena Praça do Ferreira. Sim, como aconteceu com o sol há algumas décadas. Depois de uma semana sem brilhar, como sói fazer aqui em nossas plagas, mal botou o olho de fora, foi saudado com uma bela vaia. Aqui no Ceará é assim: botou muita banca, o pessoal cai em cima e desbanca.
        De qualquer maneira, com frente fria respeitável ou não, conseguimos respirar um pouco melhor de ontem para hoje. Durante toda a noite, ou parte dela, choveu sem estardalhaço. Uma chuvinha educada, daquelas que molham a terra sem causar prejuízo. E, durante a manhã, de vez em quando, uma neblina fina justificava o céu nublado. Não sei se deu para animar os agricultores, mas que deu para aplacar o calor, ah! isso deu. Também, diante do espetáculo lastimável que se viu pela televisão nesses últimos dias, eu já estava pedindo a Deus que essa frente fria não chegasse, ou chegasse já desgastada. Pelo jeito, fui atendida.
        É certo que moramos em uma cidade plana, sem morros ou encostas que possam provocar uma tragédia como a que ocorreu no Rio de Janeiro. Nossos males são de outro tipo. Mas, mesmo assim, quando o inverno é bom, a falta de estrutura básica da cidade – um bom serviço de esgotos, galerias por onde a água possa escoar – e a imprevidência das autoridades se combinam para que os bairros mais pobres sejam castigados. Quando falo em imprevidência, refiro-me ao descaso com a limpeza dos canais que cortam a cidade, e das bocas de lobo, que, obstruídos pela sujeira de proveniências várias, acabam impedindo o escoamento da água da chuva e provocando alagamento. Nesse desserviço à sociedade, a ajuda da população não pode ser esquecida – o povo não coopera com a conservação do seu próprio espaço urbano. Atira lixo no meio da rua, joga entulhos e detritos de toda ordem dentro dos canais, abusa de material não degradável ou de difícil degradação, e faz outras coisitas mais indignas de uma população que se diz civilizada.
        O Ceará sobrevive, quase sempre, aos extremos – seca ou enchente. Dificilmente temos um período de chuva ou um inverno, como chamamos por aqui, regular. Ou chove demais, quando ocorre a destruição da plantação – dando-se o que chamamos de seca verde – ou chove de menos, ou não chove de jeito nenhum, quando ocorre a seca propriamente dita, que mata de fome e de sede pessoas e animais. Mas o Brasil inteiro conhece esse fenômeno que atormente o nordestino, tão antigo e tão mal enfrentado pelas autoridades, que, na seca de 1877, D. Pedro II já se aproveitou dele para lançar ao vento o que talvez tenha sido sua grande frase de efeito, com a promessa de que venderia até a última jóia de sua coroa, mas nenhum nordestino morreria de fome. É claro que ele não vendeu nenhuma jóia da coroa, e os nordestinos continuam ainda hoje a morrer de fome.
        E quem não se lembra ou não ouviu falar da quase tragédia provocada pelo arrombamento de uma das paredes do açude Orós, em 1960? Nesse ano, o grande açude, que nem havia sido terminado, ficou nos limites de sua capacidade, e o arrombamento de uma de suas paredes inundou algumas cidades do Vale do Rio Jaguaribe. Havia o prognóstico pessimista do arrombamento total do açude, que provocaria a destruição de toda a região, da cidade de Orós para baixo. As cidades foram evacuadas, com as populações refugiando-se nos sítios mais altos ou viajando para a capital. E, na noite do dia 25 de março, parte da parede do grande reservatório foi levada pela força das águas.
        Estamos sempre de sobreaviso, quando se aproxima a quadra chuvosa – que chamamos de inverno. O agricultor aguarda o dia de São José, 19 de março, para deixar morrer a última esperança de chuva. Lembro-me do marido de uma tia, proprietário de uma pequena fazenda de gado, que, quando entrava o mês de janeiro, ficava de pescoço duro de tanto olhar para o céu em busca de nuvens. E fazia pena a sua angústia, quando se confirmava que o ano seria de seca.
        Sabemos que a seca é uma catástrofe inominável, mas a enchente é mais perversa, traz consequências mais drásticas. O elemento água é incontrolável. Eu, da minha parte, tenho de água um pavor que chego a achar irracional. Quando vejo na televisão pessoas com as casas cheias de água, pessoas refugiadas nos tetos das construções para tentar escapar da força das enchentes, dou graças a Deus por viver em uma região de pouca chuva.
        Por isso é que fiquei feliz quando desconfiei de que essa famosa frente fria ou não vai aparecer por aqui, ou se já apareceu veio já sem moral. Só a expressão frente fria já me dá arrepios – de frio e de medo. Bem mais tranquilos eram os tempos em que, quando chovia no Nordeste, dizíamos que estávamos no inverno. Não sei não, mas acho que essa história de frente fria veio só piorar as coisas.






Uma menininha de oito anos



(Vicência Jaguaribe)




         A menininha de oito anos falava diante das câmaras. O rosto marcado por escoriações e o cabelo crespo puxado pra trás. Ela tinha consciência de que falava para o país inteiro? Não sei, ou melhor, não tenho certeza. Mas a expressão do rosto, o fechar e o abrir dos olhos no momento certo e os gestos sugestivos levavam o telespectador a pensar que ela vivia, conscientemente, os seus cinco minutos de fama. Mesmo à custa da tragédia. Ela estava em um dos quartos da casa, quando pareceu que a parede cedia e arriava por cima dela. Era muita terra, muito barro – e neste ponto ela cerra os olhos. Foi quando o pai chegou e puxou-a. Ela estava salva, mas ele ficou lá, debaixo da lama e do barro. (Depois se soube que talvez o pai não tenha morrido.)
        Para onde ela iria agora? Perguntou a repórter. Ia para a casa da tia. Depois pensaria no que ia fazer da vida. Perdera pai, mãe, irmãos. Todo mundo. Levantou-se do banco onde se sentara e acompanhou a repórter até a borda da cratera aberta pelo deslizamento. E estirou o bracinho. Ali, morava minha avó. Não tem mais nada lá. E, apontando em outra direção, disse num tom quase inaudível: Aqui tinha uma creche. A repórter olhou na direção do ponto que ela mostrava e o chão estava como que varrido. A pequena vítima desapareceu da tela, e a repórter foi focalizar outros pequenos dramas dentro do drama maior.
        A menininha me impressionou pela desenvoltura e pela calma diante da tragédia que modificaria totalmente sua vida. Falava da morte – sem nenhuma vez pronunciar a palavra – como um adulto estóico. Segundo ela, o pai ficara debaixo da lama e do barro. No lugar da casa da avó não havia mais nada. Mas ela só tem oito anos e, segundo os estudiosos, nessa idade a criança não revela total consciência do que é morrer. Mas ouso dizer, talvez ao arrepio da ciência, que as crianças pobres, criadas em ambientes em que são obrigadas a enfrentar a realidade cara a cara, amadurecem mais cedo. Não me pareceu que aquela menininha não tivesse consciência do real sentido da morte. Não soubesse, até certo ponto, o que representava para ela e para os outros sobreviventes aquela catástrofe. Talvez já se houvesse iniciado nela – a despeito de só ter oito anos – o processo de endurecimento da crosta que a protegeria – não, protegeria, não – que a prepararia para enfrentar os horrores que a vida poderá reservar-lhe.
       Não se sabe qual será o destino daquela menininha de oito anos. Pela maneira de falar, deu-me a impressão de que a casa da tia não seria seu novo lar, ou pelo menos não seria o lar ideal para ela. Ela é graciosa, desinibida, pareceu-me inteligente. Quem sabe não aparecerá um casal que a queira adotar e possa dar-lhe uma vida melhor do que a que lhe seria reservada naquela favela? Não se sabe. Outra possibilidade é que ela seja recolhida a um orfanato, onde esperará a maioridade, para poder dar um rumo à sua vida. (Mas, se o pai não morreu, essa história terá de ser recontada.)
        Bem, falo daquela menininha como se ela fosse a única vítima da tragédia que deslizou sobre as comunidades pobres do estado do Rio de Janeiro. Não, sei que há outras crianças como ela, da idade dela, na mesma situação, mas reajo, como todo mundo, ao que a mídia focaliza com uma espécie de lente de aumento. Ao entrevistar a garotinha – e por que foi ela a escolhida? –, a mídia elege uma vítima que passa a ser o símbolo de todas as outras vítimas da tragédia. Algo semelhante à focalização daquela menininha vietnamita de nove anos – Phan Thi Kim Phuc –, fotografada em 1972, correndo nua, coberta de queimaduras, depois de ser atingida pelas bombas Napalm norte-americanas. Ela passou a ser o símbolo da catástrofe que foi a Guerra do Vietnã.
        Alguém já disse que um único mártir focalizado individualmente sensibiliza mais do que mil mártires vistos em conjunto. E a mídia deve ter conhecimento disso. Por isso ficamos com a imagem da menina entrevistada pelo Jornal Nacional como se ela fosse a única vítima de uma tragédia que pôs em xeque, mais uma vez, ou melhor, pela enésima vez, a integridade de nossos políticos e a consciência dos cidadãos brasileiros de qualquer classe.






O cada uma das crianças


(Vicência Jaguaribe)




        Criança diz cada uma é um livrinho do pediatra Pedro Bloch, onde ele relata pequenos episódios envolvendo crianças e suas tiradas. Comprei, ou melhor, ganhei esse livrinho de brinde das Edições de Ouro, há muito anos, quando ainda ensinava no Colégio Nossa Senhora das Graças. Nem sei se ainda o tenho, depois de tanto tempo.
        Por força da profissão, o Dr. Pedro Bloch tinha contato com muitas crianças e, para ele, deve ter sido fácil coligir as pequenas histórias que compuseram seu livrinho. Eu sou uma apaixonada pela linguagem das crianças, pela espontaneidade com que dizem as coisas; pelo tiro certeiro que às vezes atinge o alvo da pretensão e do autoritarismo dos adultos. Não tenho filhos, mas tenho sobrinhos de sangue e sobrinhos de coração, e também posso desfiar algumas histórias saborosas de crianças. Além do mais, gosto de conversar com elas, e puxar por elas, como se diz popularmente. Incentivo-as a falar, ao ponto de algumas mães dizerem algo como Não escutem o que a tia de vocês diz, não.
         Possuí, durante alguns anos, uma casa de praia frequentada semanalmente. Ia acompanhada de uma família amiga, que tinha uma escadinha de três meninos, entre quatro e oito anos. No jantar, eles gostavam de comer pão com ovo mexido. Um dia, um deles me perguntou:
        - Tia, o que você põe nesse ovo mexido que fica tão gostoso?
        - É, ninguém faz um ovo mexido como a titia – soltou outro.
        Com a cara mais séria que pude fazer, expliquei:
        - Bem, além da margarina e do sal, eu ponho sempre uma pitada de amor.
        Passou algum tempo, e uma visita, comendo do meu ovo mexido, exclamou:
        - Que ovo gostoso!
        E um dos três meninos, que não sei mais qual foi, soltou o veredito:
        - É porque a titia sempre bota uma pitada de amor.
        Comove-me a credulidade das crianças. E aí está a grande responsabilidade do adulto. Elas acreditam no que dizemos. E isso é muito perigoso.
        Nessa mesma casa de praia, tive um papo meio científico com a filhinha de uma amiga que fora passar conosco o fim de semana.
        - Poliana, tu não vais ter outro irmãozinho, não.
        - Minha mãe não pode mais ter filho, apressou-se a responder-me a menina.
        - Não!? Por quê?
        - Porque ela foi engessada – respondeu a Poliana, com a cara muito séria.
        Não entendi de imediato o que ela quis dizer. Só depois de alguns segundos foi que o cartão acionou o telefone (sim, o cartão, pois ficha já não temos mais). Não ri, para não deixar a menina pouco à vontade, e continuei a conversa.
        A percepção que a criança tem do mundo é diferente da percepção do adulto. Até certa idade, elas não distinguem causa de efeito, tempo de espaço. Demoram a discernir noções como pequeno, médio e grande; na frente e atrás; em cima e embaixo; ontem, hoje e amanhã. Minha sobrinha Natacha foi um horror nesse sentido. E era frequente ouvir dela frases como Amanhã eu fui ao cinema.
        Uma outra sobrinha minha deu, certa vez, um bom exemplo dessa confusão, quando confundiu acho que causa e efeito, empregando o vocábulo areia em vez de vento. Ela morava no interior. Em uma cidade que se pode considerar a ante-sala do inferno, de tão quente que é. O vento, lá, chega sempre acompanhado de poeira, de areia. Pois bem, a Clara – esse é o seu nome – veio passar um fim de semana em meu apartamento, aqui em Fortaleza, em uma época de muito vento. Independente da época, meu apartamento, voltado para o nascente, é excessivamente ventilado, de modo que geralmente não se pode abrir, na sala de visitas, porta e janela ao mesmo tempo. Pois, no dia em que a Clara estava aqui, alguém achou de escancarar porta e janela simultaneamente. Resultado: formou-se um corredor de vento, que por pouco não nos faz voar, mesmo sem asas. A Clara, então, posicionando-se em frente à janela, abriu os bracinhos e, com cara de encantamento, expressou o seu prazer:
        - Mas que poela!
        Um amigo me contou uma de suas meninas – de seis e de quatro anos. Foi na época em que se perpetrou aquele crime hediondo contra a pequena Isabelle. Muitas crianças se impressionaram com a tragédia, e alguns pais nem deixavam os filhos assistirem ao noticiário. Esse amigo estava com a mais velha das filhas, a Maria, a de seis anos, assistindo ao desenho Procurando Nemo, uma história em que o peixinho Nemo se perde e seu pai faz tudo para encontrá-lo. A menina sentara-se em um sofá, e o pai, em outro sofá, vizinho ao dela. Em determinado momento do filme, a menina dá um salto e cai no colo do pai. Abraça-o e, com a voz trêmula de aflição e de medo, solta esta jóia, expressa – não se enganem os senhores – em bom vernáculo. Na nossa Última flor do Lácio, inculta e bela.
        - Pai, se eu se perder, tu procura mim?
        O pai não teve outro jeito senão derramar algumas lágrimas e jurar, por todas as entidades sagradas de todas as religiões do mundo, que, se ela se perdesse, a procuraria, sim.
        Mas não terminou naquele momento a cena edificante. Quando a Maria saiu do colo do pai, a Júlia, a de quatro anos, ia entrando na sala. A Maria, então, sem que a Júlia tivesse a mínima idéia da cena sobre a qual se fechara a cortina, olhou para a irmã e garantiu:
        - Júlia, se nós se perder, ele procura nós.
        É interessante comentar o que o pai das crianças, brincando, disse sobre a fala das filhas: Louve-se o bom português das meninas! E eu lhe retruquei, entre séria e brincalhona:
        - Sabe, Bitu, há uma forte tendência do português moderno do Brasil a transformar o pronome se, usado nessas condições, em uma partícula invariável. Acho até que, daqui a alguns muitos anos, todo mundo vai falar assim: eu se perco / tu se perdes / ele se perde / nós se perdemos / vós se perdeis / eles se perdem. A língua é um organismo vivo, evolui.
        Sobre essa evolução, pode-se dizer – e, se não se pode, vou dizer de qualquer maneira – que a criança, com sua linguagem livre de censura, é um poderoso agente de transformação. Contou-me um outro amigo e colega de profissão – professor, portanto – que certa vez estava preso em um engarrafamento com a filha. Ela olhou para os carros, olhou para ele e disse:
        - Mas que encarrafamento, hein, pai!?
        - Não é encarrafamento, filha, é engarrafamento.
        - Não, pai, não é de carro? Então, é encarrafamento.
        Só mais esta, que acho deliciosa. Um dos meus sobrinhos (um dos tortos, pois tenho sobrinhos tortos e sobrinhos direitos), na época com dois ou três anos, enfadava-se durante a viagem que fazíamos semanalmente ao Morro Branco. Para distraí-lo, eu dizia:
        - Artur, o que é mesmo que tem no Morro Branco?
        - Tem aleia, tem sili, tem mar, tem vento, tem bulubu (urubu, para quem – coitado! – é incapaz de entender a linguagem infantil) e tem vovó Heloísa. Vejam que jóia de paralelismo semântico!
        Bem, fiquemos por aqui. E, por favor, senhores pais e professores, não roubem a espontaneidade das crianças antes do tempo.




Justiça, enfim

27/03/2010

(Vicência Jaguaribe)



        Pronto, acabou a expectativa. Até parece que o dia amanheceu mais calmo. E nós, mais leves, mais tranquilos. Nos jornais, nos sítios da Internet, a manchete esperada: “O casal Nardoni, condenado pela morte da menina Isabella”. A sensação da justiça feita. Da impunidade finalmente ameaçada nesta nossa Terra de Santa Cruz.
        Fiquei ontem, até o início da madrugada, em frente ao aparelho de televisão, à espera do veredicto. Que sentimento me dominava? Estava apreensiva. Haveria justiça no final daquele julgamento? O Promotor teria convencido os jurados de que não poderia haver uma terceira pessoa na cena do crime? Como disse em crônica anterior, lá na grota mais recôndita de minha alma, havia a interrogação: E se não foram eles? Hoje não me faço mais essa pergunta. Por uma série de razões. Dentre essas razões, o comportamento do advogado da defesa, que não defendeu uma tese, mas insistiu em contraditar, sem autoridade, a palavra técnica autorizada. Dentre essas razões, um elemento importante que havia esquecido: o comportamento da avó paterna da Isabella.
        A cena de dor e de revolta por ela protagonizada na noite do crime – que os canais de televisão reprisaram ontem à noite – e a sua ausência de cena durante os dois anos que se seguiram, juntamente com seu aparecimento relâmpago na sala do julgamento, dão o que pensar. Disseram-me que ela está separada do marido, o advogado com cara de poucos amigos, que gritou, durante esses dois anos, que o filho é inocente. Então, fiz a mim mesma as perguntas que muitas outras pessoas devem também ter feito a si próprias? Por que essa senhora não seguiu o exemplo da família e foi para a frente da batalha gritar a inocência do filho, como faria qualquer mãe em situação normal. Salvo engano, ela nunca se manifestou em defesa do filho. Por quê? Será que ela não tinha certeza dessa inocência? Ou pior ainda: Será que ela tinha e tem certeza da culpa do filho? Será que ela foi proibida, pelo ex-marido e pelas filhas, de se manifestar? Muito estranho! E mais estranho ainda que não se tenha explorado essa figura esquiva – a mãe do Alexandre Nardoni.
         Hoje, ao acessar o UOL, talvez tenha expulsado a última dúvida do espírito, ao ver a fotografia de Ana Carolina Oliveira, a mãe da menina Isabella. É o retrato da dor. Da dor controlada, que persiste sem alarde e que é, por isso mesmo, mais dor. O rosto parece que se nega a obedecer ao comando do cérebro, e o que se vê não é um sorriso – que ela deve ter tentado – mas um esgar, que atinge nossa sensibilidade como uma navalha afiada. É a mãe da pequena vítima que, a despeito da condenação dos algozes da filha, vai continuar com sua dor até o fim de sua vida. É, porque, como ouvi em um depoimento da atriz Christiane Torloni, que perdeu um filho tragicamente, “quem foi que disse que se supera a morte de um filho?”
        Acho que jamais participaria daquelas manifestações explícitas de vitória ou de vingança que vi na porta do Fórum. Acho que jamais soltaria fogos de artifício em uma situação como aquela. Digo acho, porque de certas coisas a gente só tem certeza quando as vivencia. Mas estou satisfeita com a decisão do júri, com a sentença do juiz. Sei que a dor da Ana Carolina Oliveira não vai diminuir com a condenação do casal Nardoni. Mas essa condenação evitará que à dor da perda da filha se some a revolta e a inconformação com a impunidade.



Tempos de barbárie


25/03/2010



(Vicência Jaguaribe)



        Estamos vivendo os dias do julgamento do casal Nardoni, acusado de matar a menina Isabella, filha de Alexandre Nardoni e enteada de Ana Carolina Jatobá. Os canais de televisão fazem uma cobertura meio espetaculosa, entrevistando juristas e transmitindo boletins com os últimos episódios ocorridos no Fórum e arredores. Depois de dois anos, a sociedade brasileira, ou boa parte dela, torna a mobilizar-se em torno do assassinato de uma criança de cinco anos, supostamente praticado pelo pai e pela madrasta – crime inconcebível, inimaginável; crime sem atenuante e sem perdão.
        Falo em assassinato supostamente praticado, porque todos nós acusamos o casal partindo de indícios técnicos, de provas técnicas. Não temos testemunha ocular que possa nos garantir: Eu estava lá. Eu vi. É claro que as circunstâncias do crime, o comportamento do pai e da madrasta, a versão mais do que surrealista da presença de uma terceira pessoa que teria entrado no apartamento e matado a criança, tudo nos leva a crer que foram eles os assassinos. Em países mais adiantados, criou-se uma cultura que dá mais crédito às provas técnicas do que aos testemunhos humanos. Nesses países, um exame de DNA, um teste para garantir que determinadas manchas são de sangue, provas laboratoriais de que determinadas marcas só poderiam ter sido deixadas por determinadas circunstâncias e não por outras, reconstituição dos fatos para mostrar que certas versões seriam impossíveis são muito mais confiáveis do que a palavra de uma pessoa, que poderia ter sido vítima da emoção ou do nervosismo do momento; que poderia ter sofrido ilusão de óptica ou ainda estar sendo pressionada por alguém. Mas, aqui entre nós, ainda há uma confiança maior na palavra de uma testemunha ocular do que nos resultados obtidos pelo trabalho dos peritos criminais.
        E aqui estamos nós, aqui estou eu a dizer para todo mundo e, para mim mesma, que não tenho dúvidas quanto à culpabilidade do casal Nardoni. Mas lá, no mais recôndito ponto de meu espírito, eu me pergunto: E se não foram eles?
        A dúvida se articula não só em decorrência da falta de uma testemunha, mas também em consequência das relações de parentesco entre a vítima – a menina Isabella, de cinco anos – e seus algozes, pai e madrasta. Está além de nossa capacidade de aceitação e de compreensão – e só aceitamos o que compreendemos – que um pai mate uma filha de cinco anos, ou proteja alguém que a tenha matado, mesmo que esse alguém seja a segunda esposa. Um crime dessa natureza desestrutura nossa noção de racionalismo e de humanidade. Desequilibra os pilares sobre os quais foi construída a civilização. Nega um dos sentimentos mais caros ao ser humano – o amor dos pais pelos filhos – e a predisposição de um pai para amar um filho e defendê-lo, predisposição baseada não só em reações instintivas mas também e principalmente em valores culturais. Negar esses sentimentos é negar que existe um marco que separa o território humano – racional e consciente – do território animal – irracional e instintivo.
        Admitir que um pai foi capaz de matar ou ajudar a matar uma filha de cinco anos, uma criança indefesa, que aprendeu a ver nele não um agressor mas um protetor, é reconhecer o rebaixamento do ser humano civilizado, que vive na época dos milagres tecnológicos, isto é, o rebaixamento do homo technicus à dimensão dos hominídeos das cavernas. É pensar em uma categoria que poderíamos classificar de homo abjectus, um ser desprezível, vil, ignóbil, que se situa em uma dimensão paralela à do homo rationales. Esse homem atravessaria todas as épocas da história humana, ou seria uma criação dos tempos pós-modernos?
        Tenho a convicção de que as pessoas que alimentam algum resquício de dúvida sobre a participação de Alexandre Nardoni, como protagonista ou coadjuvante, no drama doloroso que foi o assassinato da menina Isabella, sua filha, construíram um mecanismo de defesa. Defendem-se da barbárie, da insanidade e da falta de escrúpulo que ameaçam a sociedade em geral e cada ser humano em particular cada vez que um homem ou uma mulher resolve abdicar de sua condição de criatura humana.



De médico e de monstro



(Vicência Jaguaribe)




        A palavra natural remonta ao vocábulo latino natura-ae, que tem como uma de suas acepções a “ação de fazer nascer, nascimento”. Essa significação justifica etimologicamente a expressão mãe natureza, tão ao gosto dos ecologistas. Ampara também o entendimento de que fenômenos naturais – um terremoto, algumas enchentes (porque há outras provocadas pela irresponsabilidade humana), um tornado, por exemplo – são gerados e paridos pela natureza. São, portanto, filhos da mãe natureza, que é mãe e madrasta. Isso lembra Mário de Andrade, que, no poema “tu”, de Paulicéia Desvairada, refere-se â cidade de São Paulo como mãe e madrasta ao mesmo tempo: Mulher que és minha madrasta e minha mãe!
        Parece-me não ser difícil encontrar homens e mulheres que, como a natureza, trazem, dentro de si, uma mãe e uma madrasta. Ou, se preferirem, um médico e um monstro, como aquela famosa criação de Robert Louis Stevenson, cuja personalidade se bipartia entre o médico generoso e humanitário, Dr. Jekyll, e o criminoso frio e desumano, Mr. Hyde. Há pais e mães que, de repente, sem que se encontre uma justificativa plausível, liberam sua porção monstro e lançam uma filha ou um filho pela janela, como no caso da menina Isabele. Pois a natureza também, de quando em vez, libera seu lado monstro.
        Essa reflexão me veio com o agravamento da situação do Haiti, castigado por terremotos. Naquele país, a natureza rejeitou seus atributos de mãe e virou madrasta, matando seus próprios filhos em uma proporção inimaginável.
        Mas o que me fez aprofundar a reflexão foi saber que, no Haiti, manifestou-se, no final da década de 1950, uma personalidade que se dividia em médico e monstro – e governou o país durante catorze anos. Quem não se lembra de François Duvalier, o Papa Doc? Sim, exatamente, o Papai Doutor. Assim ele era conhecido não só em seu país, mas no mundo todo.
        François Duvalier era médico. Formado, em 1934, pela Escola de Medicina de Porto Príncipe, especializou-se em doenças tropicais e ganhou reputação como médico e intelectual humanista. Entre 1946 e 1949, no governo de Dumarsais Estimé, Duvalier foi chefe do Serviço de Saúde Pública e Ministro do Trabalho e da Saúde Pública. Durante esse período integrou um grupo de intelectuais nacionalistas, que davam a conhecer suas idéias por meio da publicação Action Nationale. Com o golpe militar de 1951, que levou ao poder Paul Magloire, o grupo político a que pertencia Duvalier foi para a clandestinidade. Mas outro golpe militar, em 1957, fez de Duvalier o Presidente do Haiti, até 1971.
        É nesse momento que começam as primeiras manifestações do monstro que o médico guardava dentro de si, ou, se preferirem, é nesse momento, que o pai torna-se padrasto. No poder, inaugura uma era de violência e de terror, que leva o Haiti ao isolamento diplomático e a uma séria deterioração econômica e social, que repercute ainda hoje.
        Para minar a força dos militares, criou os tonton-macoutes, bichos-papões, em português, que compunham sua guarda pessoal e amedrontavam a população, temerosa até de pronunciar seu nome. Para facilitar as manobras políticas de dominação da sociedade, explorou o Vodu, uma prática mística proveniente da África, que envolve magia negra e magia branca.
        Na década de 1960, deu início a ações contra os adversários, que mandou exterminar, e começou a perseguição à Igreja Católica. Uma de suas primeira atitudes como ditador foi prender os donos das emissoras de rádio e os editores dos principais jornais do país. Em dois anos, conseguiu acabar com todos os focos de resistência ao seu governo, inclusive na Polícia e no Exército, criando uma força particular – a Guarda Draconiana. Em 1964, reescreveu a constituição do país e tornou-se presidente vitalício.
        Ditadores praticam sandices – todos sabemos. Da cabeça do Papa Doc – não o médico, mas o monstro – saíram jóias como mandar distribuir panfletos informativos, declarando-se Deus; criar uma espécie de imposto para a construção da Duvalierville, a cidade de Duvallier, dinheiro que foi engordar sua conta particular; expropriar terras, que passaram a sediar academias para os tonton-macoutes; expulsar todos os bispos e outras autoridades da Igreja Católica, colocando em seus lugares seus próprios aliados.
        Quando morreu, em 1971, o Haiti estava transformado no país mais pobre das Américas, com a saúde e a educação em situação caótica. Para substituí-lo no poder, havia indicado seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, na época, com dezenove anos.
        O que eu quis dizer, com essa explanação sobre a vida política do Papa Doc, é que nenhum povo merece genitores como os que geraram o Haiti e os haitianos. O país tem uma história atribulada, durante a qual experimentou a dominação da Espanha, que exterminou toda a população nativa; depois, a da França, que no século XVIII importou da África grande quantidade de escravos, para incrementar a lavoura açucareira na região; e, por fim, no século XIX, a dos Estados Unidos. Com a manifestação da mãe natureza, que liberou seu lado monstro, o Haiti é hoje o modelo mais acabado de um país destruído. Outros países sofreram e sofrem catástrofes naturais, mas não descem ao nível de caos a que chegou o Haiti. Por quê? Porque o Haiti não tem uma estrutura social e econômica que assegure o soerguimento de suas cidades – de suas escolas, de suas casas, de seus hospitais. O que se vê, via satélite, é um país destruído no plano material e no plano humano. É um país cujas edificações voltaram aos alicerces e cujo povo desceu ao nível da animalidade, pressionado pela fome, pela sede e pela falta de abrigo.
        A porção monstro, que também existe no homem comum, foi liberada e precisa ser contida. Só assim o Haiti poderá encontrar um rumo na sua história. Mas, para isso, os países ricos – os endinheirados, como disse uma das nossas autoridades recentemente – precisam fazer uma intervenção sem propósitos outros, senão o de ajudar.





Ainda não!
(Uma crônica escrita no Dia da Mulher, não ao Dia da Mulher)



(Vicência Jaguaribe)


Fortaleza, 8 de março de 2010.



        Mal cheguei hoje à academia, para minha seção de Pilates, cobraram-me uma crônica sobre a mulher ou sobre o Dia da. Desculpem-me, mas não escrevi nada, até tentei. Faltou-me, no entanto, vontade e inspiração. Quando fui saindo da academia, a mocinha que atende na portaria me deu os parabéns. E eu, como se estivesse concluindo uma conversa, disse-lhe: O que nos consola é que existem mulheres – as do Oriente, por exemplo – que vivem em pior situação do que nós. Não sei se deu para ela entender; o fato é que concordou comigo.
        Mas, voltando à crônica que me cobraram. Falar o que sobre a mulher?Acho que tudo ou quase tudo já foi dito: desde o discurso ultrapassado sobre o sexo fraco, sobre a companheira do homem – por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, lembram? – Mas por que devia ser por trás? Não podia ser ao lado? –; sobre a mulher-mãe, a rainha do lar, até o discurso feminista sobre a igualdade entre homem e mulher, sobre a força da mulher no mercado de trabalho, sobre a emancipação sexual da mulher e, ultimamente, até sobre a possibilidade de a mulher dispensar a participação direta do homem quando quiser procriar. Tudo besteira! Tudo palavras ao vento! Nada disso revela as dificuldades da condição de mulher na sociedade machista em que vivemos. Além do mais, existiram, bem antes do movimento feminista, mulheres emancipadas, como minha tia Maristela, que criou sete filhos sozinha, sem o amparo masculino; que tinha a cabeça distante anos-luz da cabeça das outras mulheres de seu tempo. E existem, ainda hoje, na era do bebê de proveta, no mundo da inseminação artificial, na sociedade que abre o mercado de trabalho para a mulher, mulheres totalmente submissas ao companheiro, que dependem dele, não só economicamente, mas principalmente psicologicamente – mulheres que deixam o cabelo crescer não porque gostem de cabelo grande, mas porque o marido as proíbe de cortar; mulheres que precisam pedir licença ao marido para ir a uma reunião de amigas; mulheres que têm conta conjunta com o marido e lhe dão a senha bancária e nem sabem o que sai ou entra nessa conta.
        Gostaria de falar, neste Dia da Mulher, sobre uma mulher em especial, uma mulher que enfrenta pequenos, mas reais problemas, no dia-a-dia, decorrentes de sua condição de mulher. É uma mulher de carne e osso, não uma mulher de panfleto. Gostaria de falar dela, porque a conheço como ninguém, o que torna mais fácil essa tarefa. Essa mulher não defende nenhuma bandeira feminista – porque acha isso desnecessário – nem vive atrelada ao passado. Entrou no mercado de trabalho muito cedo e, sem estardalhaço, conseguiu ocupar seu lugar, construir um nome respeitável em sua área de atuação. Essa mulher sou EU. Surpresos com minha audácia, com minha prepotência? Não se esqueçam de que uma sociedade não se faz somente com figurões, mas também com figuras aparentemente pequenas, como eu e muitas outras mulheres.
        Se me perguntassem, no Dia da Mulher, quais são as dificuldades que enfrento no cotidiano, em decorrência de ser mulher, teria a resposta na ponta da língua. Começaria pedindo uma ajudazinha a Freud, porque começaria falando sobre o problema sexual. Diria, por exemplo, que sou solteira. Por opção ou por falta de oportunidade? Na verdade, nem por um motivo nem por outro, isoladamente. Pretendentes, tive-os mais de um. Mas não aquele que me falasse dentro d’alma. E como, para mim (isso é um defeito, um problema?), sexo e casamento sempre estiveram associados aos sentimentos – digamos, ao amor – fui deixando para depois. E o depois virou ontem. Bem, mas essa condição sempre preocupou mais aos outros do que a mim mesma. As pessoas, quando me sabem solteira, surpreendem-se, olham-me como se me faltasse um pedaço. Já ouvi até da mãe de uma amiga: Tão bonita e não casou! Só faltou o coitadinha! Essa é uma cobrança que não é feita aos homens, pelo menos não na mesma proporção em que é feita às mulheres. A mulher foi feita para o homem, foi feita para procriar. Se preferir escolher outra alternativa, vai cutucar a onça com vara curta. E a cobrança começa dentro de casa. Bem, dizer que há momentos em que não sinto falta de uma companhia é mentir. Mas vejo tanta gente desacompanhada ao lado de uma companhia que dou graça a Deus por não ter uma.
        No trabalho – sou professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira –, as dificuldades não foram tão visíveis, mas existiram. Não para conviver com os alunos, para me fazer respeitar. Não, isso nunca sofri. Mas com os colegas, sim. Com alguns, para falar a verdade, não com todos. Alguns colegas professores nos tratam como se soubéssemos menos que eles, como se nossa capacidade, nossa inteligência estivessem alguns números abaixo da inteligência e da capacidade deles. Alguns professores de Língua Portuguesa acham-se imbatíveis porque estudaram no seminário e sabem(?) latim. E como, de cara, todo mundo percebe que as mulheres nunca foram seminaristas, vem a ironia. Eles acalentam a doce ilusão de que só se sabe português se se souber latim, o que é um grande engano, a não ser que se pense que saber português é saber gramática pura e descontextualizada; é ter paciência de escarafunchar a origem das palavras; é explicar, pela origem latina, por qual razão, quem nasce no Rio de Janeiro é fluminense; é pensar o português como uma língua morta, que perdeu sua capacidade de evoluir. Em verdade, em verdade lhes digo, caros leitores, saber Português é saber expressar-se bem, em português atual, em sua modalidade oral ou escrita, e ainda tendo em vista as situações variadas em que a língua é usada. E isso a gramática pura não resolve. Mas não é só entre os pares da mesma área que encontramos dificuldade – quando trabalhamos com uma equipe multidisciplinar, precisamos gritar para nos impor. É como se a palavra do professor de português tivesse mais fundamento, mais ciência, mais credibilidade do que a palavra da professora. E mais de uma vez fui forçada a gritar, para impor meu (nosso) ponto de vista.
        Nossas relações no campo dos veículos automotores são também muito difíceis. Em primeiro lugar, no trânsito. Uma boa porcentagem de homens dirige mal, digamos, pior do que as mulheres, mas nós somos sempre os sacos de pancadas dos motoristas do sexo masculino. São as pancadas que lhes saem da boca – barbeira, idiota, comprou a carteira, só podia ser mulher! e outras pérolas mais. Tenho a convicção de que o que mais irrita os homens é ver uma mulher dirigindo. Eles não se controlam: falam, xingam, buzinam, fazem gestos obscenos. E nas oficinas? Aí, acho que a própria mulher é responsável pela metade do problema. Eu, por exemplo, já entro na oficina desconfiada, achando que vou ser enganada. Como não entendo (nem quero aprender para poder entender) nada do traçado, o que o mecânico me diz eu engulo. Aí, quando saio da oficina, há sempre um machão – o irmão, o cunhado, o primo, o amigo – para dizer que fui enganada.
Há muitas coisas mais que poderia dizer sobre minha (nossa) condição de mulher no Dia da Mulher. Mas para quê? Além do mais, estou com preguiça e sinto-me enjoada de falar de minha (nossa) atuação nessa sociedade inerentemente machista. Quando é que vamos entender que somos (homens e mulheres) diferentes, às vezes, até nos situamos em polos opostos, mas não somos necessariamente melhores ou piores por nossa condição de homens ou de mulheres?
        Portanto, senhores homens, deixem-nos dirigir em paz. Olhem-nos com respeito quando nos virem desacompanhadas – e não nos digam gracinhas. Não tentem abusar de nós, quando estivermos sentadas em uma cadeira vizinho à sua no cinema. Mesmo porque já começamos a reagir. Já não temos mais vergonha de gritar no cinema pelo lanterninha (ainda existe essa figura?); de deixar a marca de nossa mão no rosto de vocês; de ir à Delegacia da Mulher denunciar um estupro ou qualquer outro desrespeito. Vamos viver em paz, como pessoas civilizadas e inteligentes. No dia em que isso acontecer, se ainda estiver viva, farei uma crônica dando alvíssaras pelo Dia da Mulher. Hoje, ainda não.







Na esquina da Barão do Rio Branco com Liberato Barroso
e quase em frente ao Cine Diogo...


(Vicência Jaguaribe)



        Um dia desses, não sei a propósito de que, alguém me falou da Casa Parente – não o que restou da grande e antiga loja do centro da cidade, que foi esfacelada em vários pequenos estabelecimentos comerciais, espalhados pelos Shopping-Centers da capital, mas da grande loja que ficava na Barão do Rio Branco, esquina com Liberato Barroso, quase em frente ao antigo Cine Diogo, de saudosa memória.
        Era uma loja de departamentos, que vendia desde produtos de perfumaria até utensílios de cozinha, passando por roupas femininas e peças de cama, mesa e banho. Mas o diferencial da Casa Parente não era a variedade de produtos oferecidos ao cliente, porém a qualidade desses produtos e a excelência do atendimento.
        Naquela época – anos 60 e 70, talvez começo dos 80 –, ainda não havia a proliferação dos centros comerciais ou centros de compras (para falar em bom português), que vemos hoje, nem se temia ser assaltado todas as vezes em que se entrava em uma loja. Também as butiques de luxo, lá para os lados das aldeotas da vida, eram poucas, e essas poucas não tinham um apelo suficientemente forte, capaz de tirar do Centro os endinheirados e os pseudoendinheirados. De modo que, quando se queria um produto melhor – um bom perfume, importado ou não; calcinhas e sutiãs de qualidade e estilo; peças de cama, mesa e banho, só comparáveis hoje às da MMartan e às da seção especial da Casa Blanca; uma blusa de malha, alinhada e bonita; e principalmente um maiô especial – ah! os maiôs Catalina –, corria-se à Casa Parente.
        E a gente viciava-se na Parente. Quando se ia ao Centro, podia-se até entrar em outra loja, olhar os produtos, perguntar dos preços e das condições de pagamento, mas acabava-se comprando na Parente. E não se pense que lá se encontrava o melhor preço ou as melhores condições de pagamento. Não, não era isso. Então, como se explica essa preferência?
        Falo agora unicamente por mim. Quando uma colega de faculdade ou de trabalho sabia que eu era cliente da Casa Parente, fazia o seguinte comentário: Tu gostas muito de ser explorada! E eu dava sempre a mesma reposta: Não! Eu gosto é de ser bem tratada! Eis aí o ponto. O tratamento que se recebia na Parente, em tempos de Samasa, Ocapana, Camelo, Casa Andrade et caterva, era o que me fazia optar por comprar naquela loja. Cada cliente se sentia único dentro daquele estabelecimento. Nada da correria que, nas outras lojas – um só funcionário querendo abarcar o mundo com as pernas, ao atender três ou quatro fregueses ao mesmo tempo –, enlouquecia todo mundo.
        A Casa Parente acabava virando tradição familiar: pessoas da mesma família costumavam, por informação de parentes, comprar na Parente (sem intenção de trocadilho) e procurar os mesmos vendedores. A gerente não era aquele funcionário invisível, que a gente sabe existir, mas que nunca se vê. Ela circulava pela loja, orientando quem entrava, esclarecendo dúvidas e atendendo às solicitações sempre que possível. E agora me lembro de uma, que fizera amizade com minha tia Maristela – a Hidelzuíte, ou Hidel, como a tia Maristela a chamava, um modelo de funcionária.
        Esse tratamento era oferecido a qualquer cliente. Mas havia aqueles clientes de fidelidade comprovada e indiscutível, a quem o vendedor dispensava um atendimento mais do que especial – a ele era dado um tratamento VIP, que contava com cadeira, café, água. Ali, o cliente descansava, enquanto o vendedor trazia de todas as seções mercadorias que ele examinava.
        É, por mais fantasioso que isso possa parecer, por mais distante que possa estar o momento histórico de que se está falando, acreditem, esta é a verdade – existiu, na Rua Barão do Rio Branco, esquina com Liberato Barroso, quase em frente ao Cine Diogo, uma grande e especial loja de departamentos, chamada Casa Parente.




Os campos-santos de Fortaleza



(Vicência Jaguaribe)


Cemitério – lugar onde não estão os mortos.
Pois eles não moram nas tumbas, nessa pátria de areia.
No Dia dos Mortos, quando vamos a um cemitério,
não os encontramos lá; nós os levamos e trazemos,
como se os passeássemos num domingo.
(Ledo Ivo. O Navio Adormecido no Bosque.)




         Moro há muitos anos em Fortaleza, mas fui pouquíssimas vezes ao Cemitério São João Batista. Talvez seja, em parte, porque a maioria dos meus mortos descansa em paz no interior, e os que dormem aqui estão no Parque da Paz.
        Falando-se no Cemitério São João Batista, não há como fugir a um paralelo entre esse campo-santo (como já não se emprega mais esse termo!) e as duas modernas necrópoles de Fortaleza. Salta aos olhos do visitante mais displicente a grande dessemelhança entre o Parque da Paz e o Jardim Metropolitano, de um lado, e o São João Batista, do outro. Parodiando João Cabral de Melo Neto, em “O Ferrageiro de Carmona”, diríamos que entre esses cemitérios Existe grande diferença / é uma distância tão enorme / que não pode medir-se a gritos. As diferenças começam pela idade: enquanto o Parque da Paz e o Jardim Metropolitano foram construídos nas últimas décadas do século XX, o São João Batista foi inaugurado no século XIX, mais precisamente em 1872. As famílias mais antigas e/ou tradicionais da cidade, portanto, têm seu túmulo no São João Batista, enquanto as famílias que foram chegando do interior mais recentemente ou os núcleos mais novos das famílias tradicionais compraram seu jazigo no Parque da Paz ou no Jardim Metropolitano.
         Os dois cemitérios modernos de Fortaleza não têm túmulos majestosos, somente sepulturas discretas, que ostentam uma simples laje tumular, colocada no nível do chão, com o nome e com a data do nascimento e da morte de quem ali jaz; em algumas, as famílias acrescentaram uma fotografia em porcelana. Os jazigos, cuja maioria ostenta flores, ficam em um verde gramado, de modo que o visitante tem a impressão de que entrou em um parque e não em um recinto de mortos.
         Já o São João Batista se distingue por seus túmulos, de vários tamanhos e estilos, verdadeiros monumentos à indesejada das gentes. Os mausoléus, alguns dos quais no formato de pequenos santuários, inclusive com porta de entrada, são eles próprios obras de arte que impressionam o visitante. A maioria está adornada por estátuas de variados tamanhos, desde pequenos anjos solitários ou em grupos até a majestosa figura do Cristo, feita em ferro, que ornamenta o túmulo da família Távora. São obras produzidas por um cinzel desconhecido, que deixou o selo do incontestável lavor artístico.
         Mas é principalmente a atmosfera que salta do ambiente o que distingue o São João Batista dos outros dois cemitérios de Fortaleza. Ali, sim, a morte está presente em toda a sua pujança. Sem nenhuma discrição, ela salta aos olhos do visitante e quase conversa com ele, que caminha contrito – o ambiente exige certa contrição – pelas alamedas sombreadas. Diferentemente, o ambiente do Parque da Paz e do Jardim Metropolitano leva à descontração. A morte ali é sentida em outra perspectiva – na perspectiva dos tempos modernos. Descarregando-a do peso da tragédia, livrando-a da aura de dor, o ambiente parece nos convidar a outro tipo de reflexão sobre esse acontecimento definitivo; convida-nos a encará-lo como algo natural, para o qual todos devemos estar preparados.
         Outro detalhe que me surpreende no Cemitério São João Batista, ao qual as pessoas, por ignorância ou desinteresse cultural, não costumam dar importância, é a presença, em meio a túmulos cristãos, de discretas tumbas de judeus, marcadas pela estrela de Davi e pelos nomes e/ou sobrenomes estrangeiros. Eu sabia que os poucos judeus que compuseram, em tempos idos, a minúscula comunidade judia de Fortaleza descansavam no Cemitério São João Batista. Mas juro que me surpreendi ao deparar-me com suas tumbas, assim, sem nenhuma separação, como se os mortos que nelas habitassem pertencessem à comunidade cristã.
         Admiradora e estudiosa da história e da cultura judaicas, tudo que diz respeito aos judeus me interessa. E lá me encontrei eu em frente às duas pequenas lápides, tocando com as mãos as estrelas de Davi, para saber se eram reais. E dizendo, para as pessoas ao meu redor – e que não deram a mínima para o meu achado –, que ali havia duas sepulturas judias. E pensei, e falei com meus próprios botões – já que a ninguém mais interessava aquela descoberta, que para mim era verdadeiramente um achado arqueológico –, que aquela saudável bendita promiscuidade era bem o retrato do Brasil. Era bem uma amostra da tolerância com o outro que existe neste nosso país. Não digo que o Brasil seja um paraíso racial, que não haja, em muitos lugares, que não se manifeste, em várias ocasiões, algum tipo de preconceito. Não, não quero dizer isso. Mas, olhando aquelas lápides, segredei a mim mesma que aquela aproximação seria inimaginável na Europa, onde, como se sabe, os judeus foram discriminados e massacrados. Ou ainda em muitos países do Oriente.
         Em verdade, digo-lhes, caros leitores, a visão daquelas tumbas, naquelas circunstâncias, me deixou um tanto animada. Deu-me a esperança de que, um dia, os povos de várias origens, de várias etnias e de várias crenças terão uma boa convivência, morrerão como amigos e irmãos, e também descansarão em paz em um mesmo solo.

6 comentários:

Eduardo Lara Resende disse...

Gêneros conto e crônica... Parabéns, Vicência, pela clareza e fundamentação do texto. Vale distribuir pelas escolas deste país afora.
Abraço.

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Olá, Vicência. Não poderia discordar de você, sabendo do que já vivi. Em razão, creio que ninguém possa. Filosoficamente, nossa existência recebe sempre o ânimo dialético entre ser e não ser. Há momentos em que nossos instintos ficam sob controle (e isso é um fenecer), em outros, eles nos pegam de surpresa e fogem, existindo descontroladamente (vivendo sem freios). Freud destacou que a civilização fez-se necessária para que o homem pudesse encontrar uma maneira de existir entre seus semelhantes; socialmente, existimos e não existimos. Creio que o centauro tenha essa perspectiva metafórica: ser e não ser; existir e não existir. Embora se seja e se exista, os duplos somados, em instantes ímpares de força nos quais um se sobrepõe ao outro.

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Vicência, volto a seu blog e me deparo com "O mundo em caixas de livros". Sei exatamente do que fala! Mas quero primeiro dialogar com o seguinte trecho de sua escrita:

Será que é desejo de encetar um diálogo com os prováveis leitores ou é irresponsabilidade de minha parte? Será que é vaidade ou loucura?

Não creio que haja irresponsabilidade em sua ação de buscar diálogo com possíveis leitores. Você pode não querer seguir a carreira de escritora, como disse, mas para mim você já trilha esse caminho, levada pela emergência da escritura. Não há irresponsabilidade, porém necessidade do ser humano por muito tempo calado que resolveu revelar(-se).

Tampouco creio em vaidade, talvez na loucura, uma vez que quando escrevemos nem sempre temos o domínio completo do que dizemos, registramos, denunciamos. Pessoa é uma referência certa para isso que constato.

Você é uma escritora, Vicência; querendo ou não seguir carreira. E sabe que já está encantando (o exemplo do menino solicitando nova leitura é sensacional).

Um abraço do Chico.

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Olá, Vicência. Leio PAZ E ESPERANÇA e me descubro entre a emoção comovida da concordância com a brevidade da existência de tudo e a alegria de deliciar-me com novo texto seu. Sempre que leio escritura sua me vejo diante de uma poesia. Poesia em prosa. Você faz essa escritura muito bem, com uma dignidade de quem sabe exatamente o que faz e porque faz. Seu texto está delicioso. Ele é sinestésico, Vicência, pois mexe com muitos sentidos confluentes, embora o "objeto" seja a planta; mas nas sugestões das entrelinhas, além de vê-la, é possível sentir o toque de mãos cuidando de uma poda, é verossímil sentir o aroma que ela deve espalhar pela casa. Obrigado, Vicência, por tão belo texto. Abraço do Chico Araujo.

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Oi, Vicência. "Carnaval — o território das transgressões" traduz de maneira sóbria o que é o Carnaval hoje. Mesmo que com esse "pezinho" no passado grego, a mídia, como bem disse, principalmente a televisão, como denunciou, transforma, a cada ano, o Carnaval na festa do "tudo pode, tudo é permitido". Agora mesmo, enquanto escrevia a frase acima, Regina Casé, no programa global ESQUENTA, sugeriu o que "não pode faltar no Carnaval": CAMISINHA. Já brinquei muitos carnavais; já tomei muitas cervejas, nos esperados carnavais. Mas nada se compara ao apelo SEXO e DROGA que se prega hoje.

Anônimo disse...

Você é simples e profunda. Mônica Magalhães.