domingo, 4 de abril de 2010

Enquete ou algo parecido

Abaixo estão dois poemas que falam de amor, em perspectivas opostas. Qual você prefere. Dê sua opinião.
Clique em comentário e diga algo. Se, depois de abrir o comentário, tiver dificuldade com a conta, clique em anônimo e depois assine.


(Vicência Jaguaribe)








  

Poema-de-Amor


(Vicência Jaguaribe)



Relutei em fazer um poema de amor.
Escapou-me o tom e atropelei o ritmo.
As palavras se esconderam encabuladas
E a sintaxe embaralhou-se escandalizada.

Mas desdobrava-se um dia tão bonito!
– Um mar azul encontrando o infinito
Pássaros desafiando o pequeno espaço verde
Crianças conquistando os últimos recantos livres –
Que resolvi, se preciso, desafiar a morte.

As lembranças, lá, arrumadinhas nas gavetas.
Nas prateleiras, o aroma e o humor da juventude.
No cofre, a sete chaves, as últimas palavras ouvidas.
Os últimos beijos e as últimas carícias trocados.
As últimas cartas recebidas. Sim, palavras de amor.
Cartas de amor, ridículas, sim, pois
(Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.)

Foi só dispor o material em cima da mesa.
Sem muito esforço, recuperei o tom e o ritmo
Encontrei as palavras antes escondidas
Consegui, sem custo, descontrair a sintaxe.
De repente, olhei para o monitor. Vi o poema lá,
Adquirindo vida, a fazer-se quase sozinho.
Minutos depois, eis o poema de amor.
Ridículo. Sim.
Pois não seria poema de amor se não fosse
Ridículo.



As rimas do amor


(Vicência Jaguaribe)


Quis fazer um poema de amor.
Inútil tentativa, esforço vão.
As palavras escorregaram da página virtual
E, com a ironia habitual, olharam-me do chão.

Recolhi as palavras esparramadas.
Tentei fazer um poema de forma fixa.
Rimei, então, amor com flor.
Ouvi uma risadinha safada.
Riso de quem critica a ingenuidade
E a ignorância dos percalços da vida.

Então, rimei amor com dor.
A risadinha safada mudou de tom:
- Não dá para ser mais original?

Para falar de amor convém saber que o amor
– que nem sempre merece loas –
Rima não com palavras, mas com pessoas.
E, como todas as rimas, as do amor
Podem ser perfeitas ou imperfeitas.

Bom ter em mente – chocante embora –
Que as do amor são, em geral, imperfeitas.
E, para usá-las, paga-se juro de mora.
Raramente o amor, ipso facto,
Rimas perfeitas encontra.
O amor se realiza mesmo é na 25ª hora.


19 comentários:

Álvaro disse...

Os poemas ficaram ótimos! O poema que mais gostei foi o "As Rimas do Amor". Amor realmente rima com muita coisa... até com pessoas

Reinventandos--se disse...

Essa história de enquete está me parecendo meio fajuta, mas...
Ambos os poemas estão marcados pela ausência de sentimentalismo e pela ironia, mas "Poema-de-amor" parece traduzir melhor a busca da palavra e a satisfação do achado final.
Não sei se me fiz entender, mas o primeiro consegue expressar a alegria do desejo realizado
Lourdinha

Anônimo disse...

Ah, Vicência,
Não acha que isso é maldade? Não consigo optar por um dos poemas. Adorei os dois e em ambos vejo seu jeito "malandro" de brincar com as palavras, seu estilo irônico de "fingir ser verdade o que de fato o é". É claro que, em termos de conteúdo, o otimismo do primeiro contamina o leitor, que se delicia com o final feliz, mas esse leitor tem de ver que, de forma bem marota, o segundo poema se afirma como tal no arranjo de palavras que constituem a negação.
Parabéns!
Helenice

Socorro Ferreira disse...

Fessora, não sei escolher, é preciso mesmo? rs!! Bem, se assim é, o segundo me parece mais brincalhão!! Amor flor dor...25°hora! Imperfeitamente amor!:)

Aíla Sampaio disse...

Romantismo irônico ou ironia ao romantismo? Seja como for, você fez bonito tocar no tema mais visitado pela literatura universal... "falem mal, mas falem de mim", dizem os poemas de amor... rsrsrs

No, final das contas, gostei mais do primeiro. Adorei imaginar a "sintaxe escandalizada"!

Beijo, Aíla

Eduardo Cruz disse...

Olá prof. Vicência, parabéns pela lsutileza poética e pela capacidade brincar com as palavras. A sra. brinca com as palavras como se penteasse uma boneca, como se pilotasse uma carrinho de rolimão, como se... Adorei a ideia da enquete, ambos poemoas são maravilhosos, no entanto resolvo optar pelo 2º. O verso final foi o que mais me chamou atenção: "O amor se realiza mesmo é na 25ª hora." Essa 25ª hora é extremamente sugestiva, gosto de texto que deixa encucado, que me leva além, que me diz aquilo que não conseguia expressar.
Mais uma vez: parabéns.

Anônimo disse...

Vicência,
Prefiro o segundo poema. Adoro esse modo como você procura incessantemente dizer o mundo além da apreensão cotidiana. Você não busca qualquer fala; consegue chegar ao cerne da palavra, descobrir a sonoridade e o movimento, inverter imagens, respirar ao ritmo de uma desafiadora pulsação.
Beijo,
AndreA

Erlene disse...

Gostei muito dos dois poemas, que se propõem a falar do amor, mas que amor mesmo eles não declaram, detendo-se na angústia do fazer poético e na ironia do tentar poetizar o amor. Não obstante, se pede uma escolha, opto pelo segundo, pela ironia (“O amor se realiza mesmo é na 25ª hora”) e pelo jogo de palavras (“Rima não com palavras, mas com pessoas./E, como todas as rimas, as do amor/ Podem ser perfeitas ou imperfeitas”). Parabéns!

Ariane disse...

Cada vez percebo que gosto de tudo que você escreve...e se realmente precisasse escolher...ficaria com o segundo poema...adorei a 25a. hora...
Ariane

Anônimo disse...

Alô Vicência!
É a primeira vez que venho nesta sua casa e então digo que nessa disputa entre amor & amor vence sempre o poeta, que se entrega, que solta o verso na palavra, a que vem de dentro do peito.Então estou agradecendo seu recado na República dos Autores, quanto a foto da capa do nosso "tão longe, tão perto". Fica meu fraterno abraço. Fatima/Laguna/SC

Eduardo Lara Resende disse...

Bonitos poemas, Vicência. Fico com o segundo - As rimas do amor.
Abraço.

Anna Myrna disse...

Li muitas coisas que você escreveu no blog. Achei tudo ótimo. Vejo que a cada dia você se aprimora mais.
Parabéns!
Francisca

J.Machado disse...

Olá Vicência, que tarefa difícil escolher um poema.Prefiro ficar com os dois, ambos são uma demonstração escancarada de uma pessoa, que tem por ofício tecer as palavras e delas nos tocar com muita sensibilidade.
Grande abraço

Anônimo disse...

Querida Titente,
gostei muito dos dois poemas, mas acho que meu preferido é o segundo.
Que risadinha safada essa que ouvimos quando tentamos escrever sobre o amor...
Li um pouco de tudo no blog, você está cada vez melhor.
Beijos,
Fernanda

Sérgio Araujo / Chico Araujo disse...

Oi, Vicência. O Poema-de-amor me tocou mais. E discordando um pouco de Lourdinha, entendo que a ironia está exatamente em fingir a inexistência de sentimentos que de fato existem. O contato com Pessoa creio que ajuda nessa minha visualização de seu poema. E ele (ou Álvaro) declara:

"Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."

Só escreve carta de amor quem ama; só fala de amor (em cartas ou poemas) quem ama. Mesmo que se expresse pela ironia.

Chico Araujo.

Gabriela disse...

Quando eu li pela primeira vez, o primeiro me chamou mais atenção, porém ao me aprofundar na leitura o segundo se mostrou mais interessante.


Postei no Facebook de tão bonito que achei. =D

Aurea disse...

Vivi, seus textos ajudam a tornam meus fds mais alegres e poéticos.

Bjim

Aurea disse...

Vivi, seus textos ajudam a tornar meus fds mais alegres e poéticos.

Bjim

Erlene Gomes disse...

Divertidas e profundas suas quadrinhas, Vicência, que na brincadeira tratam de sentimentos, fases da vida, amor, valores, ontem e hoje, insegurança, ou mesmo de História, num pão, pão, queijo, queijo, típico desse gênero textual. Li com Carolina, que também gostou muito. Legal que você tenha acrescentado esse gênero textual à seu blog. Parabéns! Abraços. Erlene.